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Muitos podem não lembrar (ou nem eram nascidos :P), mas no finalzinho da década de 1990, assistir algo que nunca havia sido lançado oficialmente no país, com legendas, era como encontrar o El Dorado. Era necessário que uns caras arrumassem as fitas do Japão, legendassem em seus computadores com 128mb de memória RAM, convertessem a legenda para o formato analógico e a jogassem numa outra fita cassete, pra assim vender caro em eventos de anime – que na época não eram tão conhecidos como hoje em dia – ou via correios mesmo (mandando o dinheiro por envelope!).

Mas um dia, Deus sorriu pra nós e a internet banda larga passou a se popularizar no Brasil. Encontrar aquele monte de animes legais que as revistinhas especializadas nos apresentavam deixou de ser um trabalho caro e complicado. No início dos anos 2000, algumas séries começaram a se popularizar entre o público que se autoproclamava “otaku” (deixando de lado os questionamentos filosóficos acerca do real significado da palavra :P).

Além de animes já conhecidos da galera, como Samurai X e Sailor Moon, outros títulos que não tinham qualquer previsão de exibição oficial no Brasil começaram a acumular um número expressivo de fãs. E um deles é o destaque desta matéria: Love Hina.

Reprodução: TV Tokyo

Por que Love Hina fez tanto sucesso

O sucesso da história não se deu por menos. O anime apresentava tudo o que muitos garotos procuravam: animação de qualidade, garotas bem desenhadas e um personagem principal facilmente identificável – um estudante simplório, sem sucesso com mulheres, que de repente se vê cercado por garotas lindas, cada uma com personalidade própria.

Como na vida real, as coisas não eram fáceis para o “herói”, que carregava o sonho de reencontrar um amor da infância. A suspeita de que uma das garotas da pousada pudesse ser essa menina da promessa é o coração da história criada por Ken Akamatsu.

Misturando comédia, romance, mistério e muito fan-service, Love Hina acabou conquistando também o público feminino.

 

Reprodução: TV Tokyo

A história

Criada por Ken Akamatsu e publicada inicialmente na Weekly Shonen Magazine em 1998, a série conta a história de Keitarô Urashima, um rapaz de 19 anos que não faz sucesso com garotas e ainda fracassou duas vezes no vestibular para a Universidade de Tóquio (a famosa Toudai).

A Toudai é o sonho máximo de qualquer estudante japonês. Nos anos 80, o vestibular era tão difícil – e só podia ser realizado uma vez na vida – que havia um preocupante índice de suicídio entre jovens de 15 a 19 anos. Posteriormente, as regras se tornaram mais flexíveis, permitindo múltiplas tentativas, mas a pressão social permaneceu.

Keitarô insiste na Toudai por causa de uma promessa feita na infância: reencontrar uma garota especial justamente nessa universidade.

Após ser expulso de casa por não estudar nem trabalhar, Keitarô vai até a cidade de Hinata, onde mora sua avó, dona de uma grande pousada. Lá, ele descobre que o local se tornou um dormitório feminino – e sua chegada não poderia ser mais caótica.

Confusões no ofurô, acusações de taradice e perseguições pela pousada marcam sua entrada triunfal. Eventualmente, sua tia Haruka revela que a avó deixou a pousada em seu nome, tornando Keitarô o novo administrador do local.

A partir daí, a história se desenvolve com muito humor, situações absurdas, pancadaria cartunesca e fan-service constante, enquanto Keitarô tenta estudar para o vestibular e conviver com as garotas.

Reprodução: TV Tokyo

As personagens

Naru Narusegawa é a personagem de maior destaque. Inteligente, centrada e temperamental, começa hostil a Keitarô, mas cria um vínculo forte com ele ao longo da série.

Shinobu é doce, insegura e uma das mais jovens moradoras da pousada. Aos poucos, aprende a se abrir e confiar nas pessoas.

Kaolla Su é a mais caótica: estrangeira, fã de armas e completamente fora da curva, funcionando como o elemento nonsense da trama.

Motoko Aoyama é a espadachim. Praticante de kendô, tem dificuldades em se relacionar com homens e um código de honra rígido.

Mutsumi Otohime é calma, otimista e diretamente ligada ao mistério da promessa de infância, além de possuir algumas habilidades curiosas.

Mitsune Konno, a mais velha, vive bebendo saquê e adorando provocar Keitarô com segundas intenções.

A variedade de personagens é um dos grandes trunfos da série, facilitando a identificação do público.

Reprodução: TV Tokyo

O anime

A animação de 24 episódios foi produzida pela XEBEC (com auxílio de outros estúdios, como Production IG e Cockpit) e exibida pela TV Tokyo em 2000. Além da série regular, Love Hina recebeu especiais de TV, OVAs e o arco final Love Hina Again.

Apesar da grande quantidade de material animado, o anime nunca foi uma adaptação totalmente fiel do mangá. Ainda assim, conseguiu preservar o espírito geral da obra.

A trilha sonora não é particularmente memorável, com exceção da abertura, lembrada mais pela nostalgia do que por impacto musical:

O mangá

Love Hina foi o grande sucesso do autor, que o levou a abrir portas para eventualmente criar Mahou Sensei Negima!, sua obra mais popular hoje em dia. Love Hina teve 120 capítulos, compilados em 14 volumes no Japão, e vendeu milhões de cópias.

Apesar do enorme sucesso comercial, Akamatsu nunca teve uma adaptação em anime que captasse totalmente a densidade emocional de seus mangás – algo que Love Hina também sofreu.

Mesmo assim, a obra permanece como referência absoluta do gênero harém.

Reprodução: TV Tokyo

Jogos da franquia

A série também ganhou diversos jogos oficiais no Japão, principalmente no auge de sua popularidade no início dos anos 2000. A maioria segue o formato de visual novel ou simulação de romance, com rotas alternativas e finais exclusivos.

  • Love Hina Pocket [ラブひな] (2000)

  • Love Hina: Totsuzen no Engage Happening [ラブひな 突然のエンゲージ・ハプニング] (2000)

  • Love Hina: Ai wa Kotoba no Naka ni [ラブひな 愛は言葉の中に] (2000)

  • Love Hina 2: Kotoba wa Konayuki no You ni [ラブひな2 言葉は粉雪のように] (2000)

  • Love Hina Party [ラブひなパーティー] (2001)

  • Love Hina: Smile Again [ラブひな 〜スマイル・アゲイン〜] (2001)

  • Love Hina Advance: Shukufuku no Kane wa Narukana [ラブひなアドバンス 祝福の鐘はなるかな] (2001)

  • Love Hina Gorgeous: Chirato Happening!! [ラブひな ごーじゃす チラっとハプニング!!] (2003)

Apesar desses jogos não terem sido lançados em inglês, o jogo Love Hina Advance foi muito popular na cena de roms na época em que foi lançado, pois recebeu tradução em inglês (E PORTUGUÊS) não-oficial. O game, assim como os outros, segue o esquema das Visual Novels, mas aqui temos mais interação, onde Keitarô deve dar as respostas certas para ganhar o coração de uma das meninas do dormitório.

A tradução em português tem um bug, onde a rota da personagem Shinobu congelava em certo ponto, então se puder jogar em inglês, é melhor.

Reprodução: Marvelous Entertainment

Love Hina no Brasil

O mangá chegou ao Brasil em 2002 pela JBC, no formato meio-tanko, que pra quem não sabe ou é jovem demais pra lembrar, era a forma que as editoras brasileiras faziam para baratear os custos: pegavam um volume original e dividiam em dois, criando uma arte de capa original para os números pares.

Apesar dos problemas gráficos comuns da época, como edição de quadrinhos usando o Paint, o lançamento foi um enorme sucesso comercial, que veio na segunda leva do boom de mangás nas bancas brasileiras no início dos anos 2000. A JBC também lançou o guidebook Love Hina Infinity, um livrinho complementar com informações sobre os personagens da série, coisa que era RARÍSSIMA de ser traduzida na época, e até hoje só sai no Brasil com séries gigantes, como One Piece.

Em 2013, a editora relançou a obra em formato original, com acabamento melhor e de acordo com os padrões dessa época. A tradução era a mesma, mas a edição dos quadrinhos foi melhorada (pararam de apagar os textos em japonês com o Paint e aprenderam a usar o Photoshop para reconstruir a arte) e num geral, ainda é a edição definitiva do mangá lançado no Brasil, tanto que até hoje você acha ele completo na Amazon e em outros sites.

Reprodução: JBC

Já o anime chegou oficialmente em 2006 pelo Cartoon Network, no bloco Toonami, com dublagem da Álamo. Posteriormente, foi exibido pela PlayTV no bloco Otacraze.

A dublagem brasileira é lembrada com carinho até hoje, com destaque para Ulisses Bezerra (Keitarô) e Melissa Garcia (Naru). O elenco todo na verdade era feito com a nata da Álamo na época. Ulisses (Shun de Andrômeda) deu um ar de bobão que combina muito com o Keitarô, e a Melissa Garcia como sempre sendo linda em tudo que faz, dando uma energia pra Naru que deixa a personagem mais apaixonante e chata (lol) que no original.

A continuação, Love Hina Again, nunca ganhou uma versão dublada, mas foi traduzida pelos diversos fansubs da época, e até hoje é possível achar por aí com certa facilidade, mesmo sendo um anime antigo.

Reprodução: TV Tokyo

Legado e conclusão

Desde a publicação original deste texto, muita coisa mudou ao redor de Love Hina e de seu criador. Após encerrar sua obra mais famosa, Ken Akamatsu consolidou ainda mais sua carreira com Negima! Magister Negi Magi, publicada entre 2003 e 2012, uma série mais longa, com tom shounen mais tradicional, mas que manteve elementos de comédia, fantasia e um grande elenco feminino.

Em 2013, o autor retornou ao mesmo universo com UQ Holder!, que funcionou como continuação espiritual de Negima e se estendeu por quase uma década.

Fora dos mangás, Akamatsu passou a atuar de forma mais ativa na indústria e na política cultural japonesa. Ele criou plataformas de distribuição digital para obras fora de catálogo e, em 2022, tornou-se o primeiro autor de mangá eleito para a Câmara dos Conselheiros do Japão. Desde então, tem se destacado por defender a liberdade criativa e os interesses da indústria de mangás e animes dentro do cenário político japonês.

Reprodução: TV Tokyo

Love Hina, por sua vez, continuou vivo no imaginário dos fãs. A obra recebeu reedições ao longo dos anos, teve artes comemorativas publicadas pelo próprio autor e foi amplamente lembrada durante as celebrações de seus 20 e 25 anos.

Mesmo sem novos animes ou continuações oficiais, a série segue sendo citada como um dos pilares do gênero harém moderno, influenciando direta ou indiretamente inúmeras obras que vieram depois.

Love Hina marcou profundamente quem acompanhava animes no início dos anos 2000. Muitos dos clichês atuais do gênero nasceram ou se popularizaram aqui.

Mesmo que hoje o gênero harém tenha perdido força, a história de Keitarô Urashima continua viva na memória de uma geração inteira.

E você… já sabe quem é a garota da promessa?

Reprodução: TV Tokyo

Dados da série

  • Produção: XEBEC (2000)
  • Episódios: 24 (TV) + 3 especiais + 3 OVAs
  • Criação: Ken Akamatsu
  • Exibição no Japão: TV Tokyo (19/04/2000 – 27/09/2000)
  • Exibição no Brasil: Cartoon Network / PlayTV
  • Distribuição: Cloverway
  • Mangá: Weekly Shonen Magazine (Japão) / JBC (Brasil)

 

Lista de episódios

01 – A Hospedaria de Garotas com Banho ao Ar Livre: Fonte Termal

02 – A Nova Residência de Shinobu

03 – Garota do Kendo Apaixonada? Esgrima

04 – A Promessa Sobre Toudai de 15 Anos Atrás: Diário

05 – Uau, uma Viagem para Kyoto! Excitante

06 – O Primeiro Beijo de Keitarô foi com…? Viagem

07 – Primeiro Encontro, Sentimentos Verdadeiros de Keitarô: Hoje em Dia

08 – A Garota do Kendo e a Lenda da Terra do Dragão: Isto é um Sonho?

09 – O Caso do Dinheiro Desaparecido de Hinata: Um Mistério

10 – Quem é a Bela Mulher Caminhando à Luz da Lua? Transformação

11 – A Ídola Vestibulanda Tentando Entrar para Toudai: Canto

12 – Mudança após Casamento? O Domingo de Motoko: Feminino

13 – O Primeiro Beijo tem Gosto de Limão? Chocolate?

14 – Encontro? A Atração de Naru por um Professor da Toudai: Amor!

15 – Eu te Amo! Confissão Romântica Dentro de uma Caverna: Conto Exagerado

16 – Apresentação de Macaco na Casa de Chá Beira-Mar de Hinata: Um Beijo?

17 – Hipnotizado por Naru? A Ilha Assombrada! Há Algo Suspeito!

18 – Garotas Bem-Vestidas em Yukata para o Festival de Verão: Vamos Lá!

19 – Casar-se? Um Príncipe do Outro Lado do Oceano: Quente

20 – Uma Promessa com uma Garota Adormecida

21 – O Ciúme Explode?! O Casal Apaixonado no Barco. Armadilha

22 – O Plano da Irmã Mais Nova, Mei: Não Pode Ser!

23 – Partido em Pedaços. Naru Oscilando Entre Sentimentos

24 – Comemore! As Flores Estão Desabrochando na Toudai? É Amor?

25 – A Escolha de Motoko: Amor ou Espada (episódio extra)


Este texto foi escrito originalmente em 2007 (!) por mim para o site Jbox, mas devido à reformulação do portal, acabou perdido por lá e por isso trouxe para cá, com adaptações e atualizações. Espero que gostem dessa viagem ao passado tanto quanto eu gostei de revisitar um texto meu de anos atrás.

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Digimon Adventure | Uma análise moderna – Parte 1 https://www.arquivosdowoo.com.br/2023/04/30/digimon-adventure-uma-analise-moderna-parte-1/ https://www.arquivosdowoo.com.br/2023/04/30/digimon-adventure-uma-analise-moderna-parte-1/#respond Sun, 30 Apr 2023 14:11:26 +0000 https://www.arquivosdowoo.com.br/?p=13798 ‘Digimon Adventure’ chegou ao Brasil, obviamente, em uma tentativa de puxar um pouco do sucesso de Pokémon. Com estreia no dia 1º de julho de 2000 pelo canal Fox Kids, e dois dias depois na Rede Globo, ‘Digimon Adventure‘, conseguiu replicar sim um pouco do sucesso dos outros monstrinhos, porém por outros motivos. Recentemente em […]

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‘Digimon Adventure’ chegou ao Brasil, obviamente, em uma tentativa de puxar um pouco do sucesso de Pokémon. Com estreia no dia 1º de julho de 2000 pelo canal Fox Kids, e dois dias depois na Rede Globo, ‘Digimon Adventure‘, conseguiu replicar sim um pouco do sucesso dos outros monstrinhos, porém por outros motivos.

Recentemente em meu canal pessoal na Twitch, assisti todos os 54 episódios da série original e, com olhar de um adulto, pude reviver aquelas memórias perdidas de mais de 20 anos atrás. Motivado por isso, fiz aqui no Arquivos do Woo uma série de matérias abordando um pouco de cada parte do anime e suas características mais marcantes.

Em alguns momentos, a comparação com Pokémon é inevitável. Porém aqui ela se faz útil para entendermos os motivos de Digimon ser tão parecido e ao mesmo tempo, tão diferente dos outros monstros que são de bolso ao invés de digitais.

Dito isso, vamos iniciar a primeira parte dessa viagem no tempo, analisando os arcos da série e seus personagens.

Créditos: Toei/Bandai.

Personagens e dinâmica

Estabelecendo que esse texto compara Digimon com Pokémon, pois ambos surgiram mais ou menos na mesma época, ambos nasceram de jogos e a premissa de ambos é parecida, vamos visualizar alguns pontos da série em relação aos monstros de bolso.

Apesar dos monstros em Digimon Adventure não serem capturáveis (especificamente nesse anime, vale dizer), a ideia de apresentar diversos monstros é similar, tendo como diferença principal o fato de termos sete protagonistas humanos com seus sete digimons (pelo menos no início), sem contar suas diversas evoluções, ao invés do trio composto por Ash, Misty e Brock, como era em 1999.

Não bastasse isso, mas seus monstros voltam a formas anteriores o tempo todo, diferentemente de Pokémon, onde mudanças de formas eram mais impactantes, já que uma vez evoluído, a forma anterior não era mais vista.

A ambientação também é um fator chave nessa comparação: Digimon começa no nosso mundo e vai para um ambiente estranho e hostil, enquanto que Pokémon se passa num mundo fictício e pacífico, onde os problemas e antagonismos de forma geral ocorrem de forma esportiva (desconsiderando Equipe Rocket).

Em Digimon, o peso de cada confronto parece maior, pois conceitos como morte, tristeza, sobrevivência são mais viscerais, pois o que está em jogo é justamente a vida dos protagonistas.

Créditos: Toei/Bandai.

Em Pokémon, todo episódio comum gira em torno da vontade de Ash de fazer algo – ir pra alguma cidade, enfrentar algum ginásio, etc. – e o resto dos personagens circula em torno dessa motivação inicial.

Por outro lado em Digimon, os digiescolhidos dividem o objetivo principal (voltar para casa), e cada um tem personalidade bem diferente, com essas vontades nem sempre combinando de maneira positiva, causando conflitos entre os protagonistas.

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Você nunca veria Ash brigando seriamente com Brock, mas em Digimon Tai e Matt (Taichi e Yamato, no original) caem na porrada pelo menos umas três vezes durante a série. Ambos têm os mesmos objetivos, mas Tai é mais explosivo e não pensa dois metros à frente sobre as consequências de suas ações, enquanto Matt se acha maduro e é arrogante de sua própria maneira.

Créditos: Toei/Bandai.

Matt é frio e calculista como um bom peak blinder, porém também tem um traço de individualismo que surge vez ou outra durante a série, principalmente em momentos onde não tem nenhum vilão e os roteiristas precisam criar algum conflitinho pra ter história no episódio.

Os outros personagens, mesmo que sem tanto destaque quanto os dois supracitados, têm personalidade bem definida:

  • Izzy é o garoto meio tímido que é o cérebro da equipe;
  • Mimi é mimada e odeia lutas;
  • Jo é o mais velho do grupo porém inseguro demais para assumir o protagonismo e isso o afeta negativamente;
  • TK é o irmãozinho do Matt e age como uma criança chata o tempo todo;
  • Sora é só… egoísta? Sério, essa personagem é péssima e trata seu digimon, Piyomon, como lixo a série inteira. É quase uma relação abusiva!
  • Kari é basicamente um macguffin e quando entra no grupo, ela perde o sentido dentro da história. Pelo menos é doce e trata seu irmão e Agumon muito bem. Vai futuramente dividir o protagonismo com TK em Digimon 02.

Os digimons principais

E mais uma vez vamos para a comparação com os Pocket Monsters: lá na franquia da GameFreak, temos animais normais que soltam poder e nada mais. O Pikachu de Ash talvez tenha uma personalidade mais definida depois de 200 anos de anime, mas os outros apenas falam seu próprio nome e é sobre isso. Evidente que temos algumas exceções como o Charizard do Ash e o Victrebell de James, mas entre os Pokémons que não falam, não há muito espaço para visualizar algum tipo de personalidade mais colorido.

Já em Digimon, 99% dos bichos falam; desde os protagonistas até os digimons que tacam bosta uns nos outros (Numemon, eu te amo).

Créditos: Toei/Bandai.

Assim, a série tem 14 protagonistas com mais dois se juntando ao fim, e é necessário que todos se desenvolvam e tenham uma dinâmica boa, não só com seus parceiros humanos, mas uns com os outros.

Em Digimon Adventure isso funciona muito bem! Fico surpreso como Agumon e Gabumon são ÓTIMOS personagens, enquanto que os outros complementam e ajudam bastante seus parceiros (ou nem tanto).

Indo na mesma ordem dos humanos, vamos falar um pouco sobre cada um:

  •  Agumon (Tai): é impulsivo assim como seu parceiro. Apesar de ser um mini-dinossauro, ele age quase como um pitbull, atirando chama-neném no primeiro sinal de fumaça. Ele é basicamente um Tai que fala grosso e é um bom parceiro pro protagonista, pois ambos parecem realmente crianças impulsivas.

    Créditos: Toei/Bandai.
  •  Gabumon (Matt): Gabumon entende a personalidade chata e marrenta de seu amigo humano, dando até esporro nele nas vezes em que ele é estúpido com seus amigos. Porém, eles nunca se abandonam. Tem um momento lá pro final em que Gabumon sabe que o Matt tá fazendo merda, mas se emociona ao lado dele dizendo que vai apoiá-lo sempre. Na minha opinião é o MELHOR digimon protagonista dessa temporada.

    Créditos: Toei/Bandai.
  •  Tentomon (Izzy): É um inseto barulhento que funciona (ou tenta) como alívio cômico. A dublagem ajuda bastante nesse quesito, pois suas falas são mais soltas e com algumas gírias. Fora isso, ele tenta ajudar o Izzy a ser mais solto e menos tímido.

    Créditos: Toei/Bandai.
  •  Palmon (Mimi): é completamente submissa à Mimi, e funciona como a amiga feia da sua parceira humana. É uma relação bem fodida, pois em várias partes temos a Mimi dizendo na cara da Palmon o quanto ela é feia. E qual a reação da digimon sobre isso? Digivolver pra uma forma bonita e ganhar a aprovação de sua “amiga”. É… só não é pior que a relação da Sora com a Piyomon.

    Créditos: Toei/Bandai.
  • Gomamon (Jo): o digimon mais esquecido e com pouca personalidade. Ele não faz contraponto ao Jo em momento algum, e normalmente só serve de meio de transporte quando evolui. Quase esqueci dele ao fazer esse texto, e tive que voltar pra reeditar quando vi que estava esquecendo alguém!

    Créditos: Toei/Bandai.
  •  Piyomon (Sora): Sora é super-egoísta. Ela não liga para seus amigos e por vários momentos do anime, não liga para seu digimon. Piyomon, por sua vez, só fica gritando “Sora….” com aquela voz da Luluzinha. É bem triste essa relação, pra ser sincero. Fora isso, o anime reusa a mesma animação de Birdramon (sua evolução) para todo ataque dela, só mudando o fundo (lol).

    Créditos: Toei/Bandai.
  •  Patamon (TK): Patamon é fraquinho e é tão infantil quanto seu parceiro criança. Eles brigam o anime todo mas sempre voltam a amigar. Sua evolução, Angemon, existe basicamente para ser o deus ex machina que fecha arcos com estilo.

    Créditos: Toei/Bandai.
  •  Tailmon (Kari): Também chamado pelo engraçado nome de Gatomon nas versões em inglês. A dublagem a chama pelo masculino, mas é canonicamente fêmea, até porque sua evolução é a Angewomon. Começa como vilã mas vira a chave de uma hora para a outra. Sua relação com a Kari é pouco explorada pois ambas surgem bem no final da série, e pra ser sincero, elas não combinam. Talvez Tailmon fosse uma ótima parceira para a Sora, já que ambas são meio pau no cu.

    Créditos: Toei/Bandai.

 

O primeiro arco – Ilha Arquivo / Devimon (episódios 1 ao 13)

Em Digimon Adventure, somos apresentados às sete crianças que dividem o protagonismo que em suas férias de verão de julho de 1999, acabam sendo transportadas para outro mundo, onde conhecem seus respectivos parceiros digimons.

Depois de alguns episódios enfrentando monstros do dia — como de costume para esse tipo de anime — as crianças descobrem o primeiro vilão da série: Devimon.

Esse ‘digimau‘ (como a dublagem comicamente chamava) tem um design que fez as mães crentes baterem em muitos filhos e tem como objetivo… dominar o Digimundo e matar os digiescolhidos.

Não é um roteiro inicial muito caprichado, porém funciona para os objetivos da Toei, que era apresentar monstrinhos e vender brinquedos.

Créditos: Toei/Bandai.

No fim, o digimon de uma das crianças resolve a briga com Devimon com um único golpe. Isso é engraçado pois após rever a série agora com olhos de adulto, eu sinto que essa luta durou muito menos do que pareceu durar 20 anos atrás.

Resumindo: o primeiro arco da história serve como forma de introduzir os personagens e os conceitos, então a profundidade e desenvolvimento dos personagens e dos vilões fica em segundo plano.

Porém mesmo assim, o tom dramático com toques de humor é definido nesse arco. Continuando a comparação com Pokémon do início do texto, temos uma série com mais “peso”, que mesmo com episódios desconexos com “monstros do dia”, temos sempre um momento meio dramático e uma divisão boa do tempo dos episódios para sempre mostrar um pouco da personalidade de cada protagonista.

O segundo arco – Etemon (episódios 14 ao 20)

Após a derrota de Devimon, um holograma com a voz do Scooby-Doo aparece: É Gennai, um velho aparentemente humano, que explica a eles que são os digiescolhidos e que precisam atravessar para o continente Saba, achar os brasões que vão ajudá-los a evoluir mais e derrotar os digimons malignos de lá.

Uma curiosidade: a dublagem chama o lugar de “Saba” mas na verdade o lugar se chama “Server” (de servidor, sabe?). Isso é reflexo de uma tradução que provavelmente misturou textos em inglês e japonês, mas isso será tratado em outro texto.

Créditos: Toei/Bandai.

Aí vemos que existe uma mudança de objetivo. No primeiro arco de Digimon Adventure, as crianças estão apenas perdidas, reagindo ao que acontece ao redor delas, sem saber muito bom para onde ir ou como sair dali. Já neste arco, elas entram na ideia de realmente ajudar o digimundo e absorvem seu papel como “escolhidos”.

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Obviamente que de início, elas entram em conflito: Jo preferia ficar na Ilha Arquivo e “esperar ajuda” (ele realmente acha que tá em Paquetá e não em outro universo), enquanto os digimons desejam ficar mais fortes para ajudar seus colegas.

Como as crianças não têm muito o que escolher, já que não existe um caminho pra casa, elas decidem seguir para o novo continente.

Créditos: Toei/Bandai.

Aqui neste arco é onde as crianças começam a tentar entender as mecânicas do universo em que estão:

“Por que os digimons evoluem?”, “Como eles fazem isso?”.

Isso permeia todos os episódios dessa fase, com as crianças passando por provações que fazem com que elas encontrem seus brasões.

Um destaque dessa saga é o episódio onde Tai resolve ser super-babaca por razão alguma, forçando Agumon a evoluir com seu brasão da Coragem.

Isso dá muito errado. Agumon se torna Skullgreymon e começa a atacar todo mundo, antes de voltar para sua forma básica, Koromon. Esse episódio baixa a bola de Tai por um bom tempo, e ele aprende que “coragem” não significa ser “marrento”, e serve como exemplo para todos os outros.

Créditos: Toei/Bandai.

Izzy também evolui muito nesse arco, e é o personagem usado para entender mais sobre a lore do digimundo. Com a ajuda de Gennai – que se prova ser uma espécie de Mestre dos Magos – Izzy descobre mais sobre a língua usada no digimundo e sobre como os dois mundos estão conectados.

O vilão do arco, Etemon, é completamente oposto a Devimon. Ao invés de dark, temos um vilão bobão que canta no karaokê e fala com uma voz meio mongoloide.

Não tem muito o que falar sobre ele pois nos sete episódios onde ele aparece inicialmente, pouco se desenvolve. E no fim do arco, ele desaparece e só volta no final do anime como um adversário menor! Portanto, vamos ao próximo arco.

Digimon Adventure
Créditos: Toei/Bandai.

O terceiro arco – Miyotismon (episódios 21 ao 39)

Pelo número de episódios de Digimon Adventure, vemos que este arco é o maior da série.

Começamos o arco com Tai e Agumon sendo transportados para o mundo real. Temos então um dos episódios mais bem dirigidos e animados da série.

Estávamos acostumados com os tons coloridos do digimundo, então a direção do anime resolveu colocar o mundo real de maneira menos brilhante, com tons mais suaves e “naturais”. O traço dos personagens traz um pouco mais de realismo, provavelmente com a intenção de dizer que eles realmente estão em um lugar normal e real.

Esse é o episódio 21, e tem esse tom diferente pois foi o único dirigido por Mamoru Hosoda, que viria a dirigir também os dois filmes da série.

Digimon Adventure
Note a diferença na direção de arte e a paleta de cores mais suave.

 

Aí que conhecemos a irmã de Tai, Kari, uma menina muito calminha que terá um papel mais importante à frente. Enquanto isso, os outros digiescolhidos continuaram no digimundo, sofrendo assédio de um digimonzinho chamado PicoDevimon, que tenta ser a cobra de Adão, perturbando as ideias dos personagens para tentar separá-los.

Digimon Adventure
Créditos: Toei/Bandai.

O que descobrimos também é que essa bolinha voadora trabalha para um Digimon obscuro, que mais tarde viríamos a saber que é o vilão desse arco: Miyotismon (nome americano de Vamdemon. A dublagem mistura as traduções e isso é um negócio pra tratarmos depois).

Após um dia no mundo real, Tai percebe que tem que voltar para ajudar seus amigos. Porém, o tempo passa muito mais rápido no digimundo por alguma razão não explicada. Assim, quando Tai volta para o mundo digital, passaram-se vários meses e todas as crianças estão separadas.

Aqui temos vários episódios onde as crianças agem individualmente tentando descobrir mais sobre seus brasões e o paradeiro de seus amigos. Tai consegue voltar e unir todos, e assim eles vão tentar enfrentar o vilão da vez.

Créditos: Toei/Bandai.

No fim dessa parte, as crianças invadem o castelo de Miyotismon e conseguem achar uma porta para que todos voltem – com seus digimons – para o mundo real! Mesmo sem derrotar o vilão novamente, terminamos mais uma parte.

O objetivo agora: encontrar o oitavo digiescolhido, necessário para salvar ambos os universos.

No mundo real, somos apresentados a história de Tailmon, uma serva de Miyotismon que eventualmente descobre ser a digimon do oitavo digiescolhido. Depois de passar um tempo no Japão procurando pela oitava digiescolhida junto dos outros asseclas de Miyotismon, ela finalmente encontra a oitava criança que, para surpresa de ninguém, era Kari, a irmã de Tai.

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Tailmon se sente atraída e comovida por finalmente pertencer à algum lugar e muda de lado sem pensar duas vezes.

As crianças também descobrem isso, tudo enquanto digimons invadem o Japão e começam a causar bagunça pelo país. Assim, finalmente temos todos os oito digiescolhidos juntos de seus digimons pela primeira vez.

Essa parte no Japão é o ápice do anime. Com episódios onde digimons MORREM, drama como os pais separados de Matt e TK tendo que se reconciliar para ajudar seus filhos, além de um episódio que gira em torno de um adulto dando em cima da Sora e da Mimi (?).

Créditos: Toei/Bandai.

São temas um pouco pesados e maduros para um anime infantil, mas que mostram que os roteiristas não queriam fazer uma história básica apenas para vender brinquedos.

No fim, Miyotismon reaparece, as crianças o vencem numa batalha épica e temos o que pra mim, deveria ser o fim do anime.

Porém, a ganância da Bandai dizia que tinham que fechar 54 episódios, então as crianças VOLTAM para o digimundo para enfrentar o que se descobre ser os verdadeiros vilões da história: os famigerados MESTRES DAS TREVAS.

O quarto e último arco – Os famigerados MESTRES DAS TREVAS (episódios 40 ao 54)

Como as crianças ficaram muito tempo no mundo real, ao voltar para o Digimundo elas veem que se passou MUITO TEMPO, e os mestres das trevas fizeram uma bagunça federal.

Todos os lugares meio que foram absorvidos numa torre chamada Montanha Espiral. Seus amigos digimons, ou morreram ou foram capturados.

As crianças se separam para procurarem pelos vilões (uma decisão scooby-doozesca demais, eu diria). Cada uma enfrenta um dos mestres das trevas, e aos poucos todos vão sendo vencidos, até que o último, Apocalymon, é derrotado com o incrível e conhecido “poder da amizade“.

Créditos: Toei/Bandai.

No fim da história, os digiescolhidos restauram os lugares do digimundo, incluindo a já icônica e três-vezes heroica, Ilha Arquivo, onde tudo começou.

Todos entram em um trenzinho que vai levá-los de volta ao mundo real, sobe a música de abertura (que vai variar de acordo com a versão que você está assistindo), o chapéu da Mimi voa e temos um final emocionante, com as crianças se despedindo de seus amigos digitais. Pelo menos por hora.

Digimon Adventure
Créditos: Toei/Bandai.

Conclusão

Digimon Adventure é um anime relativamente curto, com apenas uma temporada contando a mesma história com os mesmos personagens. Ficou marcante no Brasil e isso será abordado mais à frente em futuros textos sobre a série, mas temos como ver a personalidade colocada pelos roteiristas.

Obviamente que o roteiro tem falhas, principalmente no último e maçante arco, mas tudo que o precede é interessante, mesmo que você seja apenas um adulto procurando reviver uma memória antiga.

Nem abordei no texto as mecânicas como as digievoluções e as músicas, pois elas sustentam o roteiro em diversos pontos onde a peteca poderia facilmente cair devido a falta de urgência em alguns episódios.

As músicas serão tratadas mais à frente em outras partes, portanto fiquem tranquilos que sim, eu vou falar de Butter-Fly e sobre Angélica.

Já sobre o ritmo e a temática geral, em nenhum momento eu me senti assistindo algo muito infantilizado e pelo contrário: na verdade, a sensação de todos os streamings onde assisti online com os amigos foi de como o roteiro se provava maduro.

Com 54 episódios, “Digimon Adventure” é o tipo de anime que é considerado clássico tanto no ocidente como no Japão, tanto que em 2020, ganhou uma espécie de remake, mas que não atraiu a mesma atenção que o original.

Além disso, temos dois filmes feitos na época (que se tornaram um só no ocidente), a série de filmes Digimon tri e o mais recente Last Evolution Kizuna, que fecha a história dos primeiros digiescolhidos que ganharam série para tv.

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Digimon Adventure está atualmente disponível dublado em português através do horrível serviço Globoplay. A imagem é sub-HD, sem opção de áudio original e com abertura cantada pela Angélica.

Esse texto usou como base:

  • Conhecimento pessoal depois de assistir a série inteira esse ano;
  • Esse maravilhoso texto resumindo toda série (em inglês): https://www.unsupervisednerds.com/reads-full/2020/8/5/digimon-1999-revisited-devimon-arc;
  • A wikia/fandom de Digimon para consulta de nomes e imagens: https://wikimon.net Digimon AdventureDigimon Adventure

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