Granblue Fantasy: Relink + Endless Ragnarok | O capitão Gran não tem um segundo de paz no céu
Eu já tinha um carinho enorme por Granblue Fantasy: Relink muito antes da expansão dar as caras. Aquele lançamento de 2024 foi uma daquelas histórias raras e bonitas de vencer contra as próprias estatísticas.
Era um jogo fadado ao limbo, arrastado por anos de um desenvolvimento conturbado que fez todo mundo duvidar se ele veria a luz do dia. E aí, contra todas as expectativas, a Cygames entregou uma obra prima, um Action RPG que parecia uma pintura viva em movimento, transbordando um charme quase nostálgico dos grandes clássicos japoneses.

Zegagrande e o peso do céu
A premissa de Relink já era familiar para quem acompanhou a jornada original. O Capitão e a inseparável tripulação do Grandcypher, aquele airship imponente que se recusa a ser apenas um transporte e ganha vida própria na trama, seguem a jornada em busca da lendária ilha no fim do horizonte. Só que o destino decide fazer uma curva acentuada e joga o grupo em Zegagrande, um reino fragmentado em ilhas flutuantes, entremeado por conspirações políticas e ameaçado pela fúria de criaturas capazes de varrer cidades do mapa.
O grande trunfo de Relink nunca foi criar uma narrativa revolucionária, mas sim a delicadeza com que constrói o seu mundo. Cidades como Folca e Seedhollow não servem apenas como cenários bonitinhos para ajustar equipamentos. Elas respiram. Você escuta conversas banais nas esquinas, observa o movimento dos mercados e se pega desacelerando o passo apenas para absorver a atmosfera de um lugar que parece realmente habitado. Quando a trama finalmente se choca com a Igreja de Avia e com as lendárias Primal Beasts, o jogo eleva a escala para algo grandioso, épico de um jeito genuíno.
A expansão Endless Ragnarok chega quase como um desfecho estendido, um epílogo focado nos Ragnalia, monstros seculares que emergem de fendas no firmamento para arrastar Zegagrande ao limite.
Sem entregar surpresas que estraguem a experiência, preciso confessar que a nova campanha principal é consideravelmente mais direta e enxuta do que a jornada do jogo base. Ela existe muito mais como uma desculpa bem-intencionada para colocar os jogadores diante de novos colossos do que como um arco dramático denso. Se o seu objetivo era encontrar uma grande revelação emocional sobre os rumos da franquia, pode sentir uma ligeira falta de profundidade aqui. Por outro lado, o capricho técnico da Cygames continua impecável. As cenas registradas têm uma direção de arte primorosa e os diálogos preservam aquele calor humano característico do grupo.
Onde o jogo brilha de verdade no aspecto narrativo continua sendo nas Notas do Destino. Esses capítulos curtos, focados individualmente em cada membro da tripulação, entregam o verdadeiro coração da aventura. É ali que personagens como Katalina, Rackam, Io, Eugen e Rosetta ganham nuances reais. O detalhe mais genial desse sistema é que ler e vivenciar essas passagens concede bônus diretos de atributos. A história não está ali para atrasar a jogabilidade, mas sim para caminhar lado a lado com a evolução do seu personagem.
Com o lançamento de Endless Ragnarok, essa estrutura ganhou novos episódios dedicados exclusivamente ao novo elenco. Essa adição foi um grande acerto, pois ajuda a suavizar a sensação de uma campanha principal curta. Em vez de nos obrigar a assistir a cutscenes intermináveis e expositivas, o jogo nos entrega contos focados e extremamente agradáveis de acompanhar no nosso próprio ritmo.

A dança do combate: poesia em movimento
Se existe um motivo incontestável para encarar Granblue Fantasy: Relink, esse motivo é o combate. O jogo base já entregava uma das mecânicas mais gostosas do gênero, e a expansão consegue refinar o que já parecia excelente.
Tudo é incrivelmente ágil, preciso e satisfatório. Não existe aquela sensação preguiçosa de que alterar o personagem no menu significa apenas mudar a cor das magias no controle. Cada lutador opera em um universo mecânico próprio, exigindo diferentes ritmos de esquiva, formas de gerenciamento de recursos e sequências de combos.
Essa diversidade ganha um sopro de ar fresco gigante com a chegada dos seis novos personagens: Beatrix, Eustace, Gallanza, Maglielle, Fraux e Fediel. Cada um deles injeta uma dinâmica única no grupo.
O jogo te incentiva constantemente a testar opções, recompensa a curiosidade e celebra a otimização de builds.
E a cooperação segue como o coração do jogo. Atacar sem parar não serve apenas para drenar a vida do inimigo, mas para preencher a barra de stagger e desencadear os Link Attacks. Quando a sinergia atinge o ápice, entramos no almejado Link Time, aquele momento mágico em que o tempo parece desacelerar para os chefes e todas as suas habilidades recarregam em alta velocidade.
Ver os quatro membros da equipe alinhados, executando suas habilidades supremas em cadeia para engatar um Chain Burst, é um espetáculo de luzes e cores que nunca perde o impacto. Dá um orgulho danado de ver a estratégia dando certo na tela.
A principal inovação trazida por Endless Ragnarok nas lutas é o sistema de Summons. Agora é possível invocar entidades ancestrais no meio do caos para aplicar buffs vitais ao grupo ou despejar um ataque devastador. É uma mecânica que encaixa com perfeição na engrenagem que já funcionava, adicionando mais uma camada de decisão em tempo real sem poluir desnecessariamente os comandos.
Vale citar também o desempenho surpreendente da inteligência artificial dos seus parceiros quando se joga offline. Em vez de serem alvos passivos, a IA do jogo se esquiva com uma precisão cirúrgica de ataques letais, aplica curas no timing correto e sabe exatamente a hora de recuar. Para quem prefere encarar os desafios de forma solo, ter companheiros virtuais competentes faz toda a diferença do mundo.

Conflux: a verdadeira aprovação de fogo
Para os jogadores que devoraram o jogo base e ficaram órfãos de desafios extremos, o modo Conflux introduzido na expansão é o verdadeiro parque de diversões. Trata-se de uma bateria de testes solo pensada exclusivamente para quem já otimizou equipamentos e deseja testar seus limites práticos no controle.
As arenas chegam recheadas de modificadores aleatórios, chefes com padrões de ataque mutáveis e uma agressividade que não tolera um único erro de posicionamento.
Apanhei sem dó nem piedade nas primeiras investidas. Só que é aquele tipo de derrota justa, típica dos bons jogos de ação. Você percebe exatamente onde errou, aprende a janela correta de esquiva de um golpe e volta mais preparado.
Superar essas etapas concede materiais raríssimos, essenciais para liberar os patamares mais altos de evolução. Isso estabelece um ciclo de gameplay viciante: encarar o desafio, coletar o recurso, aprimorar o herói e retornar ainda mais forte para derreter o inimigo com gosto. É uma estrutura que prende a atenção do jeito certo.
Na parte de progressão, a expansão traz os Master Traits, expandindo o teto de nível e abrindo caminho para habilidades passivas inéditas. Quando combinamos isso ao consagrado sistema de Sigils, as gemas que moldam desde a taxa de acerto crítico até a capacidade de sobrevivência do personagem, o leque de customização se torna quase infinito. Para quem curte passar um bom tempo ajustando os mínimos detalhes de uma ficha de atributos, é um prato cheio.
Para quem está chegando agora no universo de Relink, a estrutura de evolução funciona em duas frentes fundamentais:
- As missões concluídas na guilda garantem pontos para investir nas Árvores de Masteries, liberando novos golpes e bônus de atributos.
- Os Sigils entram como o refinamento do equipamento, moldando a identidade real da sua build para o estilo de jogo que você mais gosta.
Com Endless Ragnarok, esse ciclo ganha um fôlego impressionante, criando propósitos muito mais claros para continuar explorando o universo do jogo e criando a coleção definitiva de armas.

Conectividade, arte e trilha sonora impecáveis
A chegada de Endless Ragnarok trouxe uma conquista essencial para a longevidade do título: crossplay total entre PC, e consoles. Conseguir montar salas rapidamente com amigos independentemente da plataforma em que estão jogando transforma a rotina de caça, acabando com barreiras que costumam enfraquecer jogos cooperativos com o passar dos meses.
Visualmente, o jogo continua sendo um deslumbre. O estilo de arte que mimetiza pinturas manuais em aquarela envelheceu como um bom vinho, entregando cenários épicos e animações de personagens repletas de personalidade.
A trilha sonora orquestrada segue pelo mesmo caminho de brilhantismo, intercalando arranjos eruditos com guitarras pesadas e empolgantes durante as lutas contra os chefes mais difíceis.
Sobre o desempenho, felizmente, no PC o desempenho se mantém muito estável, com tempos de carregamento mínimos e uma interface visualmente limpa e bem organizada, mesmo com a quantidade colossal de menus que o jogo acumulou.

O veredito
Endless Ragnarok não foi feito para novatos. A expansão exige maturidade de equipamentos e é voltada quase inteiramente para quem já dominou a campanha do jogo base e busca razões para continuar jogando, então o que eu recomendo é que jogue o jogo base, enfrente os desafios, e após finalizar o jogo base, vá para Endless Ragnarok.
Ainda assim, como um pacote completo, a união do jogo base com a nova expansão consolida Granblue Fantasy: Relink como uma das experiências mais ricas, bonitas e prazerosas da história recente dos RPGs de ação. A narrativa nova pode ser modesta, mas o refinamento do combate, a inclusão do modo Conflux, os seis novos integrantes do elenco e a implementação do crossplay fecham a jornada com chave de ouro.
É o tipo de jogo feito por quem entende a paixão de segurar um controle e encarar grandes monstros ao lado de amigos. A caminhada até aqui foi longa, mas os céus de Zegagrande continuam sendo um lugar incrível para se estar.
Para mim, ele se tornou o verdadeiro significado de um jogo realmente completo, Obrigado à Cygames por enviar a chave para fazer a review desse jogo que virou um dos meus favoritos de longe.
Nota: 9.5/10
Granblue Fantasy: Relink e a expansão Endless Ragnarok estão disponíveis para PlayStation 5, PlayStation 4, Nintendo Switch 2, PC. Review Realizada no PC (Steam) com uma chave cedida pela Produtora, Obrigado Cygames!













