Beast of Reincarnation | Uma linda flor crescendo em ruínas
Depois de anos vendo a Game Freak entregar Pokémon cada vez mais preguiçosos, com pouca ambição técnica e criativa, Beast of Reincarnation me pegou completamente de surpresa. Desenvolvido pela própria Game Freak, o jogo é um verdadeiro suspiro de vida para a empresa e uma surpresa muito bem-vinda em uma era cheia de lançamentos entregues pela metade.
Beast of Reincarnation se mostrou ser um pequeno passo para um provável futuro promissor da Game Freak fora da bolha Pokémon. É um jogo bonito, com uma história interessante e uma direção de arte incrível, mas que peca em dois pontos que pesam bastante na experiência final. Vou explicar cada um deles com calma ao longo do texto, porque a coisa toda é mais complexa do que só apontar defeitos.
Vale reforçar o contexto antes de entrar no jogo em si. A Game Freak sempre foi conhecida quase exclusivamente pela franquia Pokémon e, nos últimos anos, essa relação virou motivo de frustração para boa parte dos fãs, com jogos entregues cada vez com menos capricho técnico e menos ambição criativa.
Ver o estúdio se arriscar em um projeto totalmente novo, sem a bengala de uma marca consolidada segurando as vendas, já era motivo suficiente para eu prestar atenção. E o resultado, mesmo com os tropeços que vou detalhar mais adiante, mostra um time capaz de coisas muito maiores do que a rotina de Pokémon costuma permitir.

Emma, Koo e o peso da pestilência
Sem entrar em detalhes que estraguem a experiência de quem for jogar, em Beast of Reincarnation você controla Emma, uma Seladora portadora de uma pestilência conhecida como Blight. Por conta disso, ela é tratada com desdém pela maioria das pessoas, que a evitam quase o tempo todo, como se o simples fato de existir perto dela fosse perigoso. É um retrato bem construído do isolamento, e o jogo não tem pressa nenhuma em explicar tudo de uma vez.
Koo, seu fiel companheiro, um lobo gigante também marcado pela pestilência, é, de longe, o ponto mais forte dessa história inteira. O vínculo entre os dois é construído aos poucos, com gestos, cutscenes simples e pequenos momentos de cumplicidade, e funciona muito bem justamente por não forçar a barra. Além de Koo, outros dois personagens acompanham Emma em boa parte da sua jornada, e vou manter tudo livre de spoilers aqui, mas posso garantir que são figuras muito bem escritas, com personalidade própria e motivações que fazem sentido dentro do mundo devastado que a Game Freak construiu.
O cenário em si merece uma menção à parte. Estamos falando de um Japão pós-apocalíptico, tomado pela natureza depois de um colapso que devastou praticamente toda a humanidade, e a forma como esse mundo é apresentado consegue equilibrar melancolia e beleza sem cair no exagero. A todo momento, existe essa sensação de que você está andando por cima de ruínas de uma civilização inteira, e o jogo usa isso muito bem para construir tensão, mesmo em momentos mais calmos, longe de qualquer combate.

Aparar é sobreviver
A jogabilidade de Beast of Reincarnation lembra bastante Sekiro: é bem focada em aparos, e isso é ótimo. Aparar ataques inimigos no timing certo é praticamente a alma do combate, e acertar aquele encaixe perfeito dá uma sensação de recompensa imediata que poucos jogos conseguem entregar tão bem.
O grande diferencial aqui é o Koo. Quando você aciona alguma das habilidades dele, o jogo congela por um instante e abre um pequeno menu em câmera lenta, e a efetividade do ataque escolhido depende de acertar um QTE logo em seguida. É um sistema simples, na teoria, mas que, na prática, cria uma dinâmica muito gostosa de jogar, intercalando o ritmo mais frenético dos parries de Emma com esses momentos de pausa tática ao lado do seu lobo. Não é um sistema revolucionário, mas encaixa muito bem dentro da proposta do jogo e ajuda a diferenciar o combate de qualquer outro souls-like genérico por aí.
Fora o corpo a corpo, Emma também conta com armas de longo alcance, um arco e uma besta, úteis principalmente contra inimigos voadores ou para abrir distância quando a situação em campo aperta. E tem ainda a questão da locomoção, feita através do cabelo da própria Emma, que funciona como uma espécie de arpéu para alcançar áreas mais altas, dando uma verticalidade à jogabilidade. É um detalhe visualmente muito bonito e que se conecta direto com o próximo ponto que quero comentar: a direção de arte do jogo.
Sobre a trilha sonora, ela cumpre exatamente o papel que deveria cumprir, sem tentar roubar a cena, com faixas mais contidas em momentos de exploração e composições que ganham peso nos embates contra os Nushi, os chefes mais imponentes do jogo. Não é uma trilha que eu vá lembrar daqui a um ano, mas ela sustenta bem o clima do jogo, e isso já é o suficiente para o papel que precisa cumprir.

Ecos de outros mundos
Beast of Reincarnation me lembrou muitos jogos, e isso não é algo ruim, longe disso. Ele me trouxe um pouco de Stellar Blade, por conta do mundo devastado e da protagonista solitária em meio às ruínas; trouxe Sekiro pelo combate centrado em parry, mas sem a dificuldade punitiva característica da FromSoftware. É mais uma questão de semelhança estrutural mesmo, e, ainda assim, o jogo traz um ar de inovação quando colocamos o Koo para agir ao nosso lado.
E tem um outro jogo que me veio à cabeça em um momento bem específico da campanha: Shadow of the Colossus. Mas esse eu prefiro deixar como um pequeno suspense para quem for jogar poder sentir a referência com os próprios olhos, porque com certeza vai entender exatamente do que eu estou falando quando chegar lá.

Um mundo bonito demais para ser explorado de verdade
Aqui mora um dos meus maiores incômodos com o jogo. A direção de arte de Beast of Reincarnation é espetacular, sem exagero nenhum. É um dos jogos com a ambientação mais bela e mais bem feita da atualidade. Cada cenário parece pintado à mão, a natureza tomando conta das ruínas humanas cria contrastes lindos de se ver, e dá vontade de parar só para admirar a paisagem em vários momentos.
O problema é que o mapa semiaberto que sustenta essa beleza toda não tem muito a oferecer além disso. A exploração não é muito cativante e também não é devidamente recompensadora para quem gosta de sair do caminho principal. Fui atrás de vários pontos de interesse esperando encontrar algo que justificasse o desvio e, na maioria das vezes, a recompensa era genérica demais para o esforço.
Isso se soma a outro ponto que me incomodou bastante: as armas da Emma são basicamente sempre as mesmas coisas com skins diferentes, mudando só um pouco as passivas que oferecem. Dá para montar builds interessantes brincando com esses modificadores, isso é verdade, mas eu queria sentir mais variedade real de arsenal ao longo da campanha, não só reskins glorificados.

O ritmo que trava (e o frame rate também)
Esse é o outro grande problema, e talvez o mais sério dos dois. A parte da história peca muito com um pacing fraco e inconsistente, com trechos que se arrastam sem necessidade, enquanto outros passam rápido demais para desenvolver o que precisava ser desenvolvido. Não é um problema de qualidade de escrita: os personagens são bons, o mundo é interessante, mas a forma como tudo isso é entregue ao jogador falha em manter uma cadência satisfatória do início ao fim.
A otimização também deixa a desejar em muitos momentos, com quedas bruscas de FPS que atrapalham justamente nos piores momentos possíveis, no meio da exploração ou ao entrar em áreas novas. Quedas de frame rate, tearing de tela e pop-in constantes prejudicam a imersão. É algo que eu creio que terá correções em patches futuros.

Vale a pena?
Sendo direto, vale sim. Apesar de cometer alguns erros importantes, o jogo entrega uma boa história, com personagens com os quais eu realmente me importei, e uma jogabilidade divertida e dinâmica que consegue equilibrar ação rápida com aquele toque tático do Koo. Não espere o jogo mais incrível do ano, mas com certeza vale a pena e é uma experiência prazerosa de se ter. Sentar no sofá depois de um dia cansativo e jogar Beast of Reincarnation vai ser ótimo para descansar, porque o ritmo geral do jogo colabora bastante para isso, mesmo com os tropeços que ele carrega pelo caminho.
A Game Freak mostrou que tem muito mais a oferecer do que Pokémon morno lançado ano após ano e, se esse é o primeiro passo, eu quero muito ver aonde o próximo vai levar o estúdio.

Nota: 7.5/10
Beast of Reincarnation está disponível para PlayStation 5, Xbox Series S|X e PC. Review Realizada no PC, com uma chave cordialmente cedida pela GameFreak, obrigado GameFreak!













