Evil Dead Burn encontra uma nova forma de assustar sem esquecer suas raízes

Uma das coisas que sempre me agradou no filme A Morte do Demônio original era a sensação de claustrofobia e a forma como os Deadites — os demônios que se apoderam do corpo de desavisados — costumavam torturar psicologicamente os sobreviventes. Constantemente alternando entre traços da pessoa que um dia foram e a monstruosidade em que se transformaram após a possessão, eles criavam uma espiral de loucura na pobre alma que tentava se manter sã em uma situação que fugia completamente da realidade.

Então veio Evil Dead 2, praticamente um remake do original, em que Bruce Campbell finalmente adquiria a icônica motosserra no lugar da mão que fora obrigado a amputar. O filme preservava algumas características da obra de 1981, mas abraçava de vez o humor, elemento que se tornaria central em sua sequência, Army of Darkness.

Pode-se dizer que estamos diante de uma franquia que nunca fez da constância sua principal característica. Ela deixou de lado a fórmula que havia criado e passou a abraçar o humor como parte de sua identidade. O terror permanecia ali, mas agora era grotesco, exagerado e assumidamente caricato.

Longos anos se passaram até que um novo filme fosse lançado em 2013. Dessa vez, os Deadites se mostravam muito mais brutais e a narrativa voltava a levar o horror a sério, reservando pouquíssimo espaço para o humor. Ouso dizer que aquele foi um dos filmes mais violentos que havia visto até então, e uma experiência extremamente marcante.

Em 2015 veio Ash vs. Evil Dead, série que, apesar de excelente, voltou a abraçar a galhofa sem qualquer pudor. Durou três temporadas, encerrando-se em 2018, mas a franquia não demorou a retornar aos cinemas com Evil Dead Rise.

O filme conseguia ser tão brutal quanto o de 2013, mas agora centrava sua história em uma mãe solteira que, após ser possuída, transformava a vida dos filhos e dos moradores do prédio em um verdadeiro inferno. O enredo era simples, porém eficiente, e resultou em um dos melhores capítulos recentes da franquia. Não por acaso, assisti ao filme duas vezes.

Evil Dead Burn
Reprodução: Internet

Foi com essa expectativa que cheguei ao cinema para assistir Evil Dead Burn, em uma sessão ao lado do meu pai que mal reunia dez pessoas.

Se em Rise acompanhávamos uma família confinada em um prédio tentando sobreviver à mãe possuída, Burn leva a franquia para outro caminho. O filme estabelece um paralelo entre sua violência gráfica e a violência doméstica à qual inúmeras mulheres são submetidas diariamente, seja pelo marido, seja por familiares que sabem o que acontece, mas preferem fechar os olhos para o mal que vive dentro da própria casa.

O mérito do roteiro está justamente em nunca transformar essa leitura em um discurso explícito. Ela existe, mas permanece integrada ao drama da família, deixando que o horror fale por si.

Toda a construção da primeira metade do filme reforça essa proposta. A família está reunida para lidar com o luto, mas o ambiente já é tomado por ressentimentos, interesses pessoais e feridas que jamais cicatrizaram. Há uma sequência durante o jantar em que todos discutem o destino do espólio do falecido diante da viúva. Não existe qualquer elemento sobrenatural naquela cena, mas ela já provoca um enorme desconforto. O terror, naquele momento, nasce das próprias relações humanas.

Talvez seja justamente esse o maior acerto de Evil Dead Burn. O mal não invade aquela casa. Ele apenas encontra uma família que já estava emocionalmente despedaçada.

Evil Dead Burn
Reprodução: Internet

Quando o sobrenatural finalmente ganha forma, somos levados a algumas das sequências mais violentas que a franquia já produziu. São cenas chocantes, criativas e, em diversos momentos, beiram o absurdo. Ainda assim, o filme nunca parece recorrer à violência apenas para impressionar. Cada cena amplia o sentimento de desespero vivido pelos personagens.

Mesmo com um elenco relativamente pequeno e praticamente toda a história confinada a uma única casa, a direção consegue elevar a tensão por meio de diálogos afiados e longas sequências sem interrupções aparentes. O teaser divulgado antes do lançamento, inclusive, é um excelente exemplo disso. A impressão é de que aquela cena entrega tudo o que o filme tem a oferecer, mas ela representa apenas uma pequena amostra do caos que está por vir.

Outro aspecto que me agradou bastante foi a maneira como o roteiro desenvolve seus personagens. Conhecemos melhor cada integrante daquela família justamente por meio das provocações dos Deadites. Diferentemente de simples monstros, eles utilizam lembranças, traumas, frustrações e inseguranças para desmontar psicologicamente suas vítimas. As possessões deixam de ser apenas físicas e passam também a expor aquilo que cada personagem tenta esconder.

É justamente essa característica que me fez lembrar do primeiro A Morte do Demônio. A violência continua sendo brutal, mas o sofrimento psicológico volta a ocupar um papel importante dentro da narrativa.

Evil Dead Burn
Reprodução: Internet

A escolha do elenco também merece elogios. Todos conseguem transmitir a sensação de que realmente pertencem àquela família. Existe química entre eles, existe afeto, existe rancor. Quando a tragédia começa, o espectador não acompanha apenas pessoas tentando sobreviver a demônios, mas familiares vendo seus próprios vínculos serem destruídos diante de seus olhos.

Evil Dead Burn talvez não agrade quem ainda espera que a franquia siga exatamente a fórmula criada em 1981 — algo que nem mesmo Sam Raimi decidiu fazer ao longo de sua carreira. O filme entende que Evil Dead sempre foi uma série em constante transformação e utiliza esse legado para construir algo novo sem abandonar sua essência.

Depois de assistir ao filme, saí do cinema com a sensação de que havia visto não apenas um dos capítulos mais brutais da franquia, mas também um dos mais completos. A violência impressiona, os personagens convencem, a direção encontra formas criativas de manter a tensão e o roteiro consegue dizer mais do que parece à primeira vista.

Talvez seja cedo para afirmar categoricamente, mas hoje considero Evil Dead Burn a melhor história que a franquia já contou. E, sem exagero, também um dos melhores filmes de terror do ano.

Se você ainda não assistiu, faça esse favor a si mesmo. Enquanto ele ainda estiver em cartaz, vá ao cinema.

Reprodução: Internet

Diogo é criador do Arquivos do Woo, um site dedicado a videogames, memória gamer e revisitar jogos além do hype. Escrevendo sobre jogos há mais de 15 anos.