O fim da mídia física: o impacto do anúncio da Sony no futuro dos games

No dia 1º de julho de 2026, a Sony pegou todo mundo de surpresa com um anúncio que promete mudar o mercado para sempre. A empresa confirmou que, a partir do início de 2028, todos os jogos lançados para o ecossistema PlayStation serão exclusivamente digitais, decretando o fim da produção de discos físicos. A notícia causou um burburinho gigante na indústria, gerando manifestações de empresas de todos os setores – inclusive de marcas fora do ramo, como a Domino’s Pizza. É claro que a recepção não foi nada boa, e esse movimento levanta debates profundos. Precisamos discutir o que isso significa para o futuro dos games, para a preservação histórica do nosso hobby e para a forma como, daqui para frente, vamos enxergar a propriedade daquilo que jogamos.

A lição do passado: o desastre do Xbox One e o paradoxo atual da Sony

Essa polêmica toda não é exatamente nova e, se olharmos para trás, é impossível não lembrar do desastre que foi o lançamento do Xbox One em 2013. Na época, o chefão da marca, Don Mattrick, anunciou que o novo console teria um sistema onde os discos seriam praticamente inúteis para revenda ou empréstimo, já que ficariam presos a uma única conta.

O mercado pirou com a ideia e o backlash foi absurdo. A situação piorou de vez para a Microsoft quando a Sony entrou na brincadeira com um vídeo que se tornou lendário. Nele, Shuhei Yoshida e o executivo Adam Boyes ensinavam de um jeito bem debochado como compartilhar jogos físicos no PS4: bastava o Yoshida entregar o disco na mão do Boyes. Foi um golpe de mestre que destruiu qualquer chance de a Microsoft emplacar aquela estratégia, forçando a empresa a voltar atrás em quase todas as restrições antes mesmo do console chegar às lojas.

Para completar o cenário da época, ainda teve uma entrevista famosa do Don Mattrick para o jornalista Geoff Keighley, onde ele basicamente disse que, se alguém não quisesse ficar online o tempo todo, a solução era continuar jogando no Xbox 360. Aquela resposta soou como um elitismo tremendo, algo completamente fora da sintonia com o que os jogadores queriam, o que só serviu para enterrar ainda mais a imagem do Xbox One.

Agora, treze anos depois, a história dá uma volta completa, mas com a Sony fazendo algo muito mais radical. O timing não parece coincidência, já que tudo isso aconteceu apenas uma ou duas semanas depois da Rockstar confirmar que GTA 6 não teria versão física. Com esse anúncio, a Sony deixa claro que o fim da mídia física está sendo implementado de forma progressiva, o que deixa quase cem por cento claro que o PlayStation 6 provavelmente nem vai cogitar a existência de um leitor de discos (com o Project Helix da Microsoft seguindo o mesmo caminho). E as implicações disso vão muito além do plástico que a gente coloca na estante.

 

Former Sony VP Shares Story Behind Iconic PS4 Game Sharing Video
Vídeo de Adam Boyes e Shuhei Yoshida “ensinando” a emprestar jogos no PS4. (Fonte: Sony)

A barreira da estante vazia e a ilusão da propriedade digital

O problema mais imediato dessa mudança é, sendo bem direto, a proibição de ter coisas na estante. Para a galera que nasceu de 2010 para cá, isso parece não fazer diferença, já que essa geração cresceu num mundo 100% digital, onde música, filmes e jogos são apenas arquivos na rede. Eles não sentem a necessidade de ter um produto físico em casa. Mas, para quem vem de gerações mais antigas, ter aquela caixa, mesmo que hoje em dia nem venha com um manual encadernado, ainda tem um valor emocional gigante. É o prazer de colecionar, de ver o que você conquistou ali, fisicamente.

Só que, além do lado sentimental, tem a questão da propriedade. Faz tempo que a Sony e as outras gigantes colocam aqueles contratos quilométricos que ninguém lê, deixando claro que você não é dono de nada, você só está pagando por uma licença de uso que eles podem revogar quando bem entenderem. É bizarro pensar que, mesmo quando você clica naquele botão enorme escrito comprar, você está só alugando o produto por tempo indeterminado.

O jogo físico ainda é um ativo real. Hoje, eu posso comprar, vender ou trocar títulos de quase qualquer geração de PlayStation ou Xbox. Daqui a 20 anos, talvez a história mude, mas hoje esses discos têm valor, são bens que eu consigo negociar. E tem o mercado de segunda mão, que é fundamental para a indústria. Nem todo mundo tem bala para pagar o preço cheio ou esperar os descontos das lojas digitais. Muita gente joga com orçamento apertado, comprando jogos de gerações passadas, ganhando de um primo ou esperando o hype passar para pegar um usado baratinho. Esse mercado de usados movimenta a maior parte da base de jogadores. O que a Sony e a Microsoft estão fazendo é, basicamente, extinguir essa economia paralela para monopolizar tudo. Afinal, a Sony é dona da única loja possível no PlayStation e a Microsoft faz o mesmo no Xbox. Eles querem controlar exatamente quanto você paga e como você consome. Mas aqui existe uma diferença crucial entre as duas empresas que a gente precisa analisar agora.

Diferença do preço de Gran Turismo 7 usado e na única loja disponível dentro do PS5. (Fonte: OLX e Sony)

O controle do mercado: a diferença estratégica entre Xbox e PlayStation

O diferencial entre Xbox e PlayStation é um ponto chave nessa discussão. De antemão, digo que todos esses problemas são ruins, mas o ecossistema das duas empresas funciona de jeitos bem diferentes. A Sony não vende chaves de ativação (keys) dos seus jogos, ela se limita a vender gift cards com valores definidos que você é obrigado a usar dentro da própria loja deles. Já a Microsoft permite a venda de chaves de ativação para parceiros externos. Isso democratiza muito mais o acesso, já que você pode encontrar um jogo que custa cem dólares na loja oficial por um preço bem menor em outros sites. No modelo da Sony, como o gift card é a única opção, o preço raramente varia, e no final das contas, o dinheiro volta cem por cento para a conta deles. Isso configura um monopólio de mercado que já é alvo de processos nos Estados Unidos e na Europa. A minha esperança é que, num futuro não muito distante, essas empresas sejam obrigadas a permitir lojas de terceiros dentro dos seus sistemas, dando ao jogador o direito real de escolher onde quer comprar. Não sou ingênuo de achar que isso vai mudar amanhã, mas é fundamental que a justiça siga em cima e que a galera não perca a indignação, porque o comportamento das empresas é puramente estratégico.

Gift Cards do PlayStation com valores fixos (Esq.) e Chaves de jogos do Xbox com preços mais baixos em lojas alternativas (Dir.)

Chegamos nesse cenário porque a Sony tem dados concretos. Eles sabem que as vendas físicas caíram muito em relação às digitais. Eles olham para o comportamento do jogador casual, aquele que quer comprar seu jogo de esporte ou o lançamento do momento no dia que comprou o console. Esse jogador não quer esperar o disco chegar pelo correio, ele quer passar o cartão e começar a jogar na hora.

Para esse perfil, a conveniência supera qualquer debate sobre preservação ou propriedade. Se essa pessoa pudesse vender o disco depois para comprar outro jogo, talvez ela até fizesse, mas o processo de revenda dá trabalho e, para muitos, simplesmente não vale o esforço. A grande verdade é que a maioria dos jogadores hoje não tem apego com o produto físico. As gerações mais novas cresceram consumindo conteúdo sem precisar de uma estante cheia e, para elas, a praticidade do arquivo digital é tudo o que importa. Eles querem usar, aproveitar e, quando cansar, apenas trocar por outro título, sem olhar para trás. O problema é que, enquanto a gente debate a conveniência do agora, estamos ignorando o que vamos perder lá na frente, quando o servidor apagar e o jogo, que você pagou o preço cheio, simplesmente deixar de existir.

A ilusão da eternidade e o papel do PC na preservação

Olhando para o futuro, o cenário é inevitavelmente complexo. Como alguém que cresceu nos anos 90, é difícil aceitar que nada disso vai durar para sempre. O apego emocional que a gente tem com o que compra chega num limite quando percebemos a fragilidade da mídia. Infelizmente, muitos discos hoje nem contêm o jogo completo; é apenas uma versão 1.0, que exige um update logo de cara para funcionar. Isso já é um golpe na preservação, porque a gente não consegue brigar com o tempo. Podemos sonhar em deixar uma estante cheia para os nossos filhos, mas a verdade é que os discos não são eternos. Diferente dos cartuchos de antigamente, que tinham placas robustas, os discos ópticos degradam, eles apodrecem, mesmo guardados nas melhores condições.

CD apodrecido pelo tempo. (Fonte: Google)

Por isso, a preservação real não está atrelada a ter o objeto físico na mão, mas sim ao acesso digital democratizado. E aqui, a salvação acaba sendo o computador. O Xbox e o PlayStation não estão nem um pouco preocupados com isso. A Nintendo, por ser uma empresa japonesa, ainda mantém um pé na mídia física, mas seus game cards não são a solução definitiva. Com o fechamento constante das lojas digitais da Nintendo, como aconteceu com o Wii, DS, 3DS e Wii U, o game card corre o risco de virar apenas um pedaço de plástico inútil quando a infraestrutura de rede for desativada.

A Steam e o GOG ainda oferecem um caminho mais seguro. No PC, o ambiente é menos controlado e permite que você faça backups reais dos seus dados. Mesmo que você não consiga rodar um jogo hoje por conta de algum sistema de proteção, o futuro sempre encontra um jeito, seja através de cracks ou modificações criadas pela própria comunidade.

O Gabe Newell tem uma política que, até agora, caminha bem, mas nada garante que a filosofia da empresa não mude ou que o controle não seja transferido um dia. Nada é 100% seguro, mas o que você pode fazer é garantir suas cópias e confiar na cultura de backup coletivo que existe no PC.

Precisamos aceitar que a mídia física rodando direto no console original não é um caminho para a eternidade. O futuro é entender que a sua coleção precisa ser sua, sob o seu controle, e o PC é, hoje, a nossa única ferramenta real de resistência contra o apagamento da história dos jogos.

O futuro da nossa autonomia: por que você não deve aceitar a narrativa do descarte

Chegando ao fim dessa reflexão, a questão vai muito além de videogame. Quando a gente atinge certa idade, a ficha cai: nada nessa vida é para sempre, seja com as pessoas que amamos ou com os objetos que acumulamos. Talvez o maior legado que a gente possa deixar para as gerações futuras seja justamente o valor das coisas que construímos e preservamos. Infelizmente, a tendência atual das grandes empresas e governos é empurrar a gente para um modelo onde ninguém possui nada, apenas usa, descarta e segue em frente. Muita gente está crescendo sem a mínima perspectiva de ter uma casa, um carro ou qualquer bem físico, tratando até um simples jogo como algo que não lhes pertence.

O mais perigoso é que as pessoas estão se acostumando com essa apatia, como se não ter nada fosse o novo normal. Mesmo que as gerações mais novas encarem isso com passividade, acho fundamental a gente fazer a nossa parte e ensinar que sim, ter as suas coisas importa e valorizar o que é seu é um ato de resistência.

Não deixe que o silêncio corporativo domine o debate. A Sony publicou o anúncio do fim da mídia física e, logo depois, ficou quase dois dias em silêncio absoluto, esperando que o assunto esfriasse e desaparecesse. É o modus operandi deles. Por isso, a única arma que a gente tem é votar com a carteira. Não entregue seu dinheiro para empresas que trabalham ativamente para tirar a sua autonomia, seja no mercado de games, no setor imobiliário ou nas concessionárias. Não aceite essa narrativa de que você não precisa ter nada. Faça sua parte, valorize o que é seu e lute para que a geração seguinte possa viver com a dignidade e a liberdade que a gente ainda luta para manter hoje.