Love Hina | Revisitando o harém mais marcante da história
Muitos podem não lembrar (ou nem eram nascidos :P), mas no finalzinho da década de 1990, assistir algo que nunca havia sido lançado oficialmente no país, com legendas, era como encontrar o El Dorado. Era necessário que uns caras arrumassem as fitas do Japão, legendassem em seus computadores com 128mb de memória RAM, convertessem a legenda para o formato analógico e a jogassem numa outra fita cassete, pra assim vender caro em eventos de anime – que na época não eram tão conhecidos como hoje em dia – ou via correios mesmo (mandando o dinheiro por envelope!).
Mas um dia, Deus sorriu pra nós e a internet banda larga passou a se popularizar no Brasil. Encontrar aquele monte de animes legais que as revistinhas especializadas nos apresentavam deixou de ser um trabalho caro e complicado. No início dos anos 2000, algumas séries começaram a se popularizar entre o público que se autoproclamava “otaku” (deixando de lado os questionamentos filosóficos acerca do real significado da palavra :P).
Além de animes já conhecidos da galera, como Samurai X e Sailor Moon, outros títulos que não tinham qualquer previsão de exibição oficial no Brasil começaram a acumular um número expressivo de fãs. E um deles é o destaque desta matéria: Love Hina.

Por que Love Hina fez tanto sucesso
O sucesso da história não se deu por menos. O anime apresentava tudo o que muitos garotos procuravam: animação de qualidade, garotas bem desenhadas e um personagem principal facilmente identificável – um estudante simplório, sem sucesso com mulheres, que de repente se vê cercado por garotas lindas, cada uma com personalidade própria.
Como na vida real, as coisas não eram fáceis para o “herói”, que carregava o sonho de reencontrar um amor da infância. A suspeita de que uma das garotas da pousada pudesse ser essa menina da promessa é o coração da história criada por Ken Akamatsu.
Misturando comédia, romance, mistério e muito fan-service, Love Hina acabou conquistando também o público feminino.

A história
Criada por Ken Akamatsu e publicada inicialmente na Weekly Shonen Magazine em 1998, a série conta a história de Keitarô Urashima, um rapaz de 19 anos que não faz sucesso com garotas e ainda fracassou duas vezes no vestibular para a Universidade de Tóquio (a famosa Toudai).
A Toudai é o sonho máximo de qualquer estudante japonês. Nos anos 80, o vestibular era tão difícil – e só podia ser realizado uma vez na vida – que havia um preocupante índice de suicídio entre jovens de 15 a 19 anos. Posteriormente, as regras se tornaram mais flexíveis, permitindo múltiplas tentativas, mas a pressão social permaneceu.
Keitarô insiste na Toudai por causa de uma promessa feita na infância: reencontrar uma garota especial justamente nessa universidade.
Após ser expulso de casa por não estudar nem trabalhar, Keitarô vai até a cidade de Hinata, onde mora sua avó, dona de uma grande pousada. Lá, ele descobre que o local se tornou um dormitório feminino – e sua chegada não poderia ser mais caótica.
Confusões no ofurô, acusações de taradice e perseguições pela pousada marcam sua entrada triunfal. Eventualmente, sua tia Haruka revela que a avó deixou a pousada em seu nome, tornando Keitarô o novo administrador do local.
A partir daí, a história se desenvolve com muito humor, situações absurdas, pancadaria cartunesca e fan-service constante, enquanto Keitarô tenta estudar para o vestibular e conviver com as garotas.

As personagens
Naru Narusegawa é a personagem de maior destaque. Inteligente, centrada e temperamental, começa hostil a Keitarô, mas cria um vínculo forte com ele ao longo da série.
Shinobu é doce, insegura e uma das mais jovens moradoras da pousada. Aos poucos, aprende a se abrir e confiar nas pessoas.
Kaolla Su é a mais caótica: estrangeira, fã de armas e completamente fora da curva, funcionando como o elemento nonsense da trama.
Motoko Aoyama é a espadachim. Praticante de kendô, tem dificuldades em se relacionar com homens e um código de honra rígido.
Mutsumi Otohime é calma, otimista e diretamente ligada ao mistério da promessa de infância, além de possuir algumas habilidades curiosas.
Mitsune Konno, a mais velha, vive bebendo saquê e adorando provocar Keitarô com segundas intenções.
A variedade de personagens é um dos grandes trunfos da série, facilitando a identificação do público.

O anime
A animação de 24 episódios foi produzida pela XEBEC (com auxílio de outros estúdios, como Production IG e Cockpit) e exibida pela TV Tokyo em 2000. Além da série regular, Love Hina recebeu especiais de TV, OVAs e o arco final Love Hina Again.
Apesar da grande quantidade de material animado, o anime nunca foi uma adaptação totalmente fiel do mangá. Ainda assim, conseguiu preservar o espírito geral da obra.
A trilha sonora não é particularmente memorável, com exceção da abertura, lembrada mais pela nostalgia do que por impacto musical:
O mangá
Love Hina foi o grande sucesso do autor, que o levou a abrir portas para eventualmente criar Mahou Sensei Negima!, sua obra mais popular hoje em dia. Love Hina teve 120 capítulos, compilados em 14 volumes no Japão, e vendeu milhões de cópias.
Apesar do enorme sucesso comercial, Akamatsu nunca teve uma adaptação em anime que captasse totalmente a densidade emocional de seus mangás – algo que Love Hina também sofreu.
Mesmo assim, a obra permanece como referência absoluta do gênero harém.

Jogos da franquia
A série também ganhou diversos jogos oficiais no Japão, principalmente no auge de sua popularidade no início dos anos 2000. A maioria segue o formato de visual novel ou simulação de romance, com rotas alternativas e finais exclusivos.
Apesar desses jogos não terem sido lançados em inglês, o jogo Love Hina Advance foi muito popular na cena de roms na época em que foi lançado, pois recebeu tradução em inglês (E PORTUGUÊS) não-oficial. O game, assim como os outros, segue o esquema das Visual Novels, mas aqui temos mais interação, onde Keitarô deve dar as respostas certas para ganhar o coração de uma das meninas do dormitório.
A tradução em português tem um bug, onde a rota da personagem Shinobu congelava em certo ponto, então se puder jogar em inglês, é melhor.

Love Hina no Brasil
O mangá chegou ao Brasil em 2002 pela JBC, no formato meio-tanko, que pra quem não sabe ou é jovem demais pra lembrar, era a forma que as editoras brasileiras faziam para baratear os custos: pegavam um volume original e dividiam em dois, criando uma arte de capa original para os números pares.
Apesar dos problemas gráficos comuns da época, como edição de quadrinhos usando o Paint, o lançamento foi um enorme sucesso comercial, que veio na segunda leva do boom de mangás nas bancas brasileiras no início dos anos 2000. A JBC também lançou o guidebook Love Hina Infinity, um livrinho complementar com informações sobre os personagens da série, coisa que era RARÍSSIMA de ser traduzida na época, e até hoje só sai no Brasil com séries gigantes, como One Piece.
Em 2013, a editora relançou a obra em formato original, com acabamento melhor e de acordo com os padrões dessa época. A tradução era a mesma, mas a edição dos quadrinhos foi melhorada (pararam de apagar os textos em japonês com o Paint e aprenderam a usar o Photoshop para reconstruir a arte) e num geral, ainda é a edição definitiva do mangá lançado no Brasil, tanto que até hoje você acha ele completo na Amazon e em outros sites.

Já o anime chegou oficialmente em 2006 pelo Cartoon Network, no bloco Toonami, com dublagem da Álamo. Posteriormente, foi exibido pela PlayTV no bloco Otacraze.
A dublagem brasileira é lembrada com carinho até hoje, com destaque para Ulisses Bezerra (Keitarô) e Melissa Garcia (Naru). O elenco todo na verdade era feito com a nata da Álamo na época. Ulisses (Shun de Andrômeda) deu um ar de bobão que combina muito com o Keitarô, e a Melissa Garcia como sempre sendo linda em tudo que faz, dando uma energia pra Naru que deixa a personagem mais apaixonante e chata (lol) que no original.
A continuação, Love Hina Again, nunca ganhou uma versão dublada, mas foi traduzida pelos diversos fansubs da época, e até hoje é possível achar por aí com certa facilidade, mesmo sendo um anime antigo.

Legado e conclusão
Desde a publicação original deste texto, muita coisa mudou ao redor de Love Hina e de seu criador. Após encerrar sua obra mais famosa, Ken Akamatsu consolidou ainda mais sua carreira com Negima! Magister Negi Magi, publicada entre 2003 e 2012, uma série mais longa, com tom shounen mais tradicional, mas que manteve elementos de comédia, fantasia e um grande elenco feminino.
Em 2013, o autor retornou ao mesmo universo com UQ Holder!, que funcionou como continuação espiritual de Negima e se estendeu por quase uma década.
Fora dos mangás, Akamatsu passou a atuar de forma mais ativa na indústria e na política cultural japonesa. Ele criou plataformas de distribuição digital para obras fora de catálogo e, em 2022, tornou-se o primeiro autor de mangá eleito para a Câmara dos Conselheiros do Japão. Desde então, tem se destacado por defender a liberdade criativa e os interesses da indústria de mangás e animes dentro do cenário político japonês.

Love Hina, por sua vez, continuou vivo no imaginário dos fãs. A obra recebeu reedições ao longo dos anos, teve artes comemorativas publicadas pelo próprio autor e foi amplamente lembrada durante as celebrações de seus 20 e 25 anos.
Mesmo sem novos animes ou continuações oficiais, a série segue sendo citada como um dos pilares do gênero harém moderno, influenciando direta ou indiretamente inúmeras obras que vieram depois.
Love Hina marcou profundamente quem acompanhava animes no início dos anos 2000. Muitos dos clichês atuais do gênero nasceram ou se popularizaram aqui.
Mesmo que hoje o gênero harém tenha perdido força, a história de Keitarô Urashima continua viva na memória de uma geração inteira.
E você… já sabe quem é a garota da promessa?

Dados da série
- Produção: XEBEC (2000)
- Episódios: 24 (TV) + 3 especiais + 3 OVAs
- Criação: Ken Akamatsu
- Exibição no Japão: TV Tokyo (19/04/2000 – 27/09/2000)
- Exibição no Brasil: Cartoon Network / PlayTV
- Distribuição: Cloverway
- Mangá: Weekly Shonen Magazine (Japão) / JBC (Brasil)
Lista de episódios
01 – A Hospedaria de Garotas com Banho ao Ar Livre: Fonte Termal
02 – A Nova Residência de Shinobu
03 – Garota do Kendo Apaixonada? Esgrima
04 – A Promessa Sobre Toudai de 15 Anos Atrás: Diário
05 – Uau, uma Viagem para Kyoto! Excitante
06 – O Primeiro Beijo de Keitarô foi com…? Viagem
07 – Primeiro Encontro, Sentimentos Verdadeiros de Keitarô: Hoje em Dia
08 – A Garota do Kendo e a Lenda da Terra do Dragão: Isto é um Sonho?
09 – O Caso do Dinheiro Desaparecido de Hinata: Um Mistério
10 – Quem é a Bela Mulher Caminhando à Luz da Lua? Transformação
11 – A Ídola Vestibulanda Tentando Entrar para Toudai: Canto
12 – Mudança após Casamento? O Domingo de Motoko: Feminino
13 – O Primeiro Beijo tem Gosto de Limão? Chocolate?
14 – Encontro? A Atração de Naru por um Professor da Toudai: Amor!
15 – Eu te Amo! Confissão Romântica Dentro de uma Caverna: Conto Exagerado
16 – Apresentação de Macaco na Casa de Chá Beira-Mar de Hinata: Um Beijo?
17 – Hipnotizado por Naru? A Ilha Assombrada! Há Algo Suspeito!
18 – Garotas Bem-Vestidas em Yukata para o Festival de Verão: Vamos Lá!
19 – Casar-se? Um Príncipe do Outro Lado do Oceano: Quente
20 – Uma Promessa com uma Garota Adormecida
21 – O Ciúme Explode?! O Casal Apaixonado no Barco. Armadilha
22 – O Plano da Irmã Mais Nova, Mei: Não Pode Ser!
23 – Partido em Pedaços. Naru Oscilando Entre Sentimentos
24 – Comemore! As Flores Estão Desabrochando na Toudai? É Amor?
25 – A Escolha de Motoko: Amor ou Espada (episódio extra)
Este texto foi escrito originalmente em 2007 (!) por mim para o site Jbox, mas devido à reformulação do portal, acabou perdido por lá e por isso trouxe para cá, com adaptações e atualizações. Espero que gostem dessa viagem ao passado tanto quanto eu gostei de revisitar um texto meu de anos atrás.















