No momento que você estiver lendo esse artigo, eu provavelmente vou ter saído de casa pela primeira vez em meses (sem contar as idas ao posto para a vacinação), já que a última vez que havia saído, foi pra visitar o zoológico (que tem o nome fresco de Bioparque). E honestamente, não tem muito a ver com o fato de eu estar desempregado. Mesmo quando eu trabalhava, eu sempre fui um bicho mais caseiro. Saídas eram geralmente reservadas a coisas como a Bienal do Livro e tal.

Por quê estou escrevendo sobre isso? Sei lá. Enfim, o Chaosmonger Studio foi fundado no começo dos anos 2000 pelo italiano Nicola Piovesan, a princípio, o foco sempre foi em produções audiovisuais, com curta metragens variados.

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Em 2017, graças ao financiamento do Kickstarter, um curta metragem chamado “Attack of the Cyber Octopuses” foi lançado, o que levou a um outro financiamento de curta que seria lançado em 2019, chamado “Robot will Protect You”, que estrelaria Tina, uma das personagens de AotCO, só que 17 anos antes.

Desse curta, saiu mais um financiamento, dessa vez, de um jogo, a primeira vez que o Chaosmonger adentraria o mercado de jogos. E no começo de 2021, chegava aos PC’s, o adventure Encodya.

E em novembro desse ano, o jogo finalmente foi lançado para os consoles. Será que a jornada vale a pena? Ou Encodya é um point and click que merece ser esquecido por suas falhas catastróficas?

Sigam-me os bons!

Encodya
Créditos: Chaosmonger Studio

Uma jornada para salvar Neo-Berlim

Neo-Berlim, no ano de 2062. Tina, uma órfã de 9 anos de idade, vive com SAM-53, seu desajeitado robô guardião, em um abrigo improvisado no topo de um prédio de Neo-Berlim, uma megalópole sombria controlada pelas corporações.

Tina é uma criança da selva de pedra, que aprendeu a viver sozinha, arrumando coisas no lixo da cidade, e sobrevivendo disso. Seu robô está sempre junto dela, programado para protegê-la, não importando a situação.

Um dia, a garota descobre que seu pai lhe deixara uma importante missão: finalizar seu plano de salvar o mundo dos monótonos tons de cinza. Tina e SAM embarcam numa aventura cheio de criaturas robóticas bizarras, e seres humanos grotescos.

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O enredo de Encodya possui humor, mas não é aquela coisa escrachada que vimos em Leisure Suit Larry e que era 50/50, ou eu ria feito um desgraçado ou ficava com cara de nada.

Aqui é um humor mais “espertinho”, sutil e não permeia toda a jornada em si. Algumas referências durante a jornada vão fazer umas risadas altas (uma no final do jogo me fez rir alto) ocorre, mas a história mistura bem a questão do humor, com o drama da jornada de Tina para cumprir a missão que seu pai lhe deixara.

Nem todos os personagens são exatamente marcantes, já que alguns dos que você interagem, são basicamente parte do cenário. Mas, ainda assim a jornada é legal de ver, porque no fim, as pessoas que Tina interage na jornada, aparecem no final.

Encodya
Créditos: Chaosmonger Studio

É um point and click bom, maaas…

Encodya é um adventure point and click, então sabemos o que esperar… Mais ou menos. Ele possui dois personagens jogáveis, Tina e Sam. Tem momentos em que você precisará jogar usar a Tina, porque ela interage melhor socialmente com certas pessoas.

Porém, Sam também é necessário porque tem coisas que só ele pode levantar, locais que só ele alcança e robôs que só falam com ele por conta da linguagem robótica.

Enfim, as típicas presepadas do gênero estão aqui. Combinar itens de maneira absurda, conversar com as pessoas pra conseguir pistas e solucionar enigmas.

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Isso aqui soará como reclamação particular minha, porque é, mas eu fico meio embasbacado com o quanto point’n clicks no PS4 são diferentes uns dos outros no quesito jogabilidade, ainda que no PC eles sejam mais homogêneos nesse departamento, mesmo sendo produzidos por produtoras diferentes.

Mesmo a série Deponia, no PS4, os jogos possuem controles ligeiramente diferentes. Enfim, ao menos Encodya possui um botão pra corrida, o que faz com que a navegação pelos cenários seja rápida.

O jogo é relativamente curto pra um point’n click, com duração total entre 5 e 6 horas (a campanha do Kickstarter diz 6 horas, mas meu save tem 5 horas e quebrados, isso porque eu fiquei QUINZE MINUTOS PARADO em um ponto pra um “Segredo” do jogo que me deu um troféu), mas é possível terminar em menos tempo, tem um achievement pra sub 4 horas.

No geral, Encodya é um bom point and click, mas… Ao menos na versão de Playstation 4, o jogo possui problemas de performance notáveis. Em especial em transição de cenários. Não afeta tanto a jogabilidade, mas é visível até mesmo pro jogador mais casual. A coisa é tão gritante que na cutscenes final, alguns momentos a taxa de quadros cai pra casa de 1 digito.

Créditos: Chaosmonger Studio

Belíssimos gráficos, quase como se fosse um filme jogável

Ok, o título da parte gráfica é uma piada com o fato de que o jogo foi inspirado no curta animado dos próprios produtores. Não sei exatamente o quanto de assets da animação foi reaproveitado, mas divago. O jogo possui cenários lindos, evocativos de uma versão um pouco cartunizada do estilo cyberpunk.

Ainda que a estética de mundo dominado por corporações esteja ali, é tudo menos agressivo. Dito isso, na metade final do jogo, o jogo dá um 180 no design de cenários, contendo campos e florestas verdejantes, mas não menos impressionantes.

Os modelos dos personagens possuem um estilo que me lembrou um pouco o remake de Monkey Island que saiu na década passada, com o estilo cartunizado. E como não pude jogar os remakes na época (e nem depois, mas enfim), isso aqui ficou bem legal, apesar de a princípio parecer estranho (isso é uma coisa que digo de todo point’n click que analiso aqui.)

A dublagem é um ponto bastante positivo, especialmente que Richard Epcar (Raiden em Mortal Kombat, Ansem em Kingdom Hearts) e Lizzie Freeman (Yanfei em Genshin Impact, Popoi no remake de Secret of Mana) reprisaram seus papéis como SAM e Tina… E fizeram um bom trabalho, assim como o resto do cast, que apesar de não ter nomes de quilate, desempenham seus papéis com competência.

A trilha sonora, composta por Yann Latour é um bocado atmosférica. Não no sentido de sons ambientes, longe disso, mas melodias calmas que dão por vezes o tom dramático de uma cena, ou o clima claustrofóbico de uma megalópole cyberpunk.

Não são aquelas músicas que você vai ouvir porque são músicas que te agitam, mas fora do jogo, você pode ouvi-las tranquilamente pra relaxar.

Créditos: Chaosmonger Studio

Quase recomendado

Se não fossem os problemas de performance, a recomendação de Encodya seria do tipo sem pensar duas vezes. Mas, isso deixa as coisas meio em cima do muro. É um bom point and click, mas do jeito que está no PS4, aguarde uma promoção.

Não sei se esses problemas de performance existem no PC, então não tenho autoridade pra falar. Honestamente, depois de pesquisar pra essa análise, fiquei com vontade de assistir aos dois curtas que originaram o jogo.

Enfim, Encodya está disponível para PC, Nintendo Switch, PlayStation 4 e Xbox One.


Essa análise foi feita com uma cópia digital de PlayStation 4 gentilmente cedida pela Assemble Entertainment.

Author: Geovane Sancini

Geovane, mais conhecido como Sancini (ou Kyo, se você for velho o suficiente pra lembrar do nick antigo dele) é um escritor e speedrunner que joga videogames desde que se entende por gente.