Todo mundo já conhece como funcionam os jogos da série Bomberman. Você controla um humano numa roupa de astronauta – que mais tarde se transformaria num simples mascote humanoide que conhecemos hoje – que explode paredes de tijolo atrás de inimigos.

Lançado originalmente para PC’s japoneses em 1983, a sua popularidade veio somente dois anos depois, quando o port feito para o Famicom/NES chegou ao mercado.

Desde então, são pelo menos 65 jogos novos na série. Sim, SESSENTA E CINCO, fora alguns que não estão listados na Wikipédia, como spin-offs que usam os personagens mas não necessariamente fazem uso do mesmo gameplay.

Histórico da série até o Saturn

Para nós brasileiros, acho que o conhecimento da série se deu mesmo na geração 16 Bits, com os jogos da série Super Bomberman para o SNES, que teve incríveis cinco jogos.

Essa fase da série colocava o Bomberman Branco e o Preto em histórias fantasiosas, com viagens por planetas diferentes, que serviam de plano de fundo para justificar a variedade de cenários e chefes.

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Isso deixava o pessoal da Hudson Soft (RIP) livre para usar a criatividade a bel-prazer, sem falar que o SNES permitia mais variedades de cores e sprites em relação aos seus antecessores.

Com a chegada dos consoles de 32-bits – Saturn e PlayStation – , a empresa queria levar essa fase do homem-bomba para a nova geração.

Porém, eles tinham dois caminhos a seguir: manter o que já haviam desenvolvido e aprimorado na série com gráficos 2D ou largar TUDO PARA TRÁS para criar um novo jogo totalmente em 3D, que era moda da época.

E o que eles fizeram? Bem, as duas coisas, mas vamos falar do visual 2D clássico usado somente no primeiro jogo para o console da Sega e deixar os jogos 3D para outro dia.

Saturn Bomberman

Diferentes produtoras, mesmo homem-bomba

O que se sabe  (leia-se: “o que dá pra se achar no google em inglês”) é que 1996 foi um ano agitado para a série Bomberman. Somente neste ano, tivemos:

  • Super Bomberman 4 (abril de 1996, feito pela empresa Produce)
  • Saturn Bomberman (julho de 1996)
  • Bomberman GB 3  (dezembro de 1996)
  • Bomberman B-Daman (spin-off, feito pela empresa AI)

Vendo a lista acima, podemos notar que a Hudson Soft já terceirizava seus projetos, a fim de atingir todos os consoles no mercado. Observando os lançamentos dos anos anteriores recentes, podemos ver que quase toda série Super (feita, obviamente para o SNES), foi feita por essa empresa chamada “Produce”.

Saturn Bomberman
Takayuki Hirai, em 1996.

Ela foi fundada em 1990 por ex-funcionários da IREM, e fazia jogos para outras empresas maiores, como a Square, Enix e a própria Hudson Soft.

O envolvimento da Produce com a série Bomberman se iniciou em Super Bomberman 1, tendo feito esse, Super Bomberman 2, Super Bomberman 4 e o Neo Bomberman, esse último feito para os arcades da SNK.

Tatsumitsu Watanabe, em 2002.

Todos esses games foram dirigidos por Takayuki Hirai e foram feitos por mais ou menos o mesmo staff. Esses jogos se caracterizam pelo uso bem variado de cores e temática mais espacial. Num geral, foram games muito bem recebidos na época.

Enquanto isso, o time interno da Hudson Soft produzia outros jogos da série, liderados pelo diretor Tatsumitsu Watanabe, como Bomberman ‘93 (Turbografx-16), Super Bomberman 3 (SNES, sendo uma versão do Bomberman ’93 pro console) e claro, Saturn Bomberman.

Comparação entre Hudson Soft e Produce

Apesar dos dois diferentes times produzindo games na mesma época, é praticamente impossível notar diferenças gritantes de estética ou visão geral sobre o uso do personagem.

Afinal, não tem muito o que errar ao se fazer um jogo de um boneco com cabeça de televisão, não é mesmo? Mas se passarmos a malha-fina, podemos ver que o estilo dos games produzidos dentro da Hudson Soft é mais, digamos, “clássico”, com um Bomberman com cabeça mais quadrada e proporções mais normais.

Saturn Bomberman
Super Bomberman 3 (Hudson Soft) (esq.) e Super Bomberman 4 (Produce) (dir.)

Já os games feitos pela Produce fazem maior uso de estética dos animes da época, com um Bomberman mais cabeçudo e uso maior de expressões faciais engraçadas em telas de continue, abertura ou nos finais dos jogos.

De modo geral e se colocando na cabeça do consumidor casual, não há como perceber diferenças. Todos os jogos possuem controles e regras similares, que só seriam quebradas na série principal futuramente, principalmente nos games feitos para PlayStation e seus sucessores.

Inclusive, o jogo de Saturn usa influências de todos os jogos anteriores, sejam os da Hudson ou da Produce, o que o torna a versão definitiva do que foi produzido para a série na época.

Saturn Bomberman

Melhorias do Saturn

Ufa! Depois dessa longa introdução que tomou muitas abas do meu Chrome abertos no site da MobyGames, podemos finalmente abordar o tema desse texto.

Lançado em 1996, no início da curta vida do 32-bits da Sega (o 32-bits que vale, não o cogumelo chamado 32x), Saturn Bomberman trouxe consigo toda a experiência adquirida nos cinco anos anteriores pela empresa da abelhinha, contando com um character design já bem estabelecido, personagens coloridos e jogabilidade bem otimizada.

Junto a isso, temos as características adicionadas que só poderiam ter sido implementadas em novos consoles, como:

  • Vídeos de abertura e encerramento em anime:
    Animações bem legais dos personagens, que aparecem tanto na abertura, quanto no encerramento, que ajudam a ilustrar melhor a historinha do jogo. Foram feitas pelo Studio Cockpit, que já trabalhou em vários animes, como Berserk (1998) e Gintama (2006);
  • Rotação e redimensionamento de sprites:
    Inexistente no SNES e no Mega sem auxílio de chips especiais – como o Super FX. Foi usada para dar um efeito mais legal nas explosões, mas principalmente nos chefes, que parecem ter saído de Yoshi’s Island;
  • Mais camadas de background:
    Todo mundo que já futucou um emulador de SNES sabe que ele possuía até 4 camadas para distribuir os sprites na tela, e mesmo assim de forma limitada. Como o Saturno possui um número maior, isso foi utilizado para criar fases com cenários cheios de profundidade, como um chão de vidro transparente onde é possível ver o piso debaixo. Falando assim não parece nada demais, mas é bem legal durante o gameplay.
  • Transparência real (sem efeito dithering):
    O Sega Saturn é infame por usar, na maioria dos jogos, uma transparência falsa, chamada de dithering. É uma técnica que é usada desde o Mega Drive, onde a textura da água (por exemplo) preenchia um “pixel sim, um pixel não”, de forma que desse pra ver o fundo da cena e assim, criando a ilusão de transparência. A verdade é que o Saturn podia sim criar transparência real, só que aparentemente dava muito trabalho, mas alguns devs conseguiram aplicar isso em seus jogos. Em Saturn Bomberman, temos alguns exemplos disso, como algumas correntes de água que fazem uso do efeito que é raro no console;
  • Animações mais detalhadas:
    Isso é óbvio mas vale dizer: pela maior memória (de RAM e em espaço físico do disco) disponível no console, foi possível animar tudo de forma mais complexa. Os personagens possuem diversas animações, como uma dancinha quando você fica parado muito tempo ou se tremer de medo quando fica preso entre uma bomba e uma parede. Além disso, os chefes e inimigos comuns se mexem com muita fluidez, possuindo bem mais quadros de animação do que em jogos anteriores da série;
  • Trilha sonora de maior qualidade:
    Será abordado melhor mais à frente, mas obviamente que o CD permite que músicas de maior qualidade sejam usadas, e não somente samples que usam o chip do console, como era no SNES e no Mega.
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Resumindo: Saturn Bomberman é o Sonic CD da série Bomberman, usando gráficos similares aos seus antecessores, porém melhorando onde dá com o auxílio do hardware novo, sem reinventar a roda ou enfeitar demais o pavão.

Saturn Bomberman

Modos de jogo: Normal Mode

O jogo contém diversos modos. Em Normal Game, temos o modo história, composto por cinco mundos com pelo menos oito fases e um chefe, que pode ser jogado para um ou dois jogadores ao mesmo tempo.

Esse modo é o grosso do jogo para quem quer jogar sozinho. Comparando esse modo com os de jogos anteriores, nota-se claramente que a Hudson Soft quis criar maior variedade de cenários entre os mundos. Começamos em um com temática de parque de diversões, depois vamos para um de samurais, depois um de velho oeste e por aí vai.

A grande diferença do modo Normal de Saturn Bomberman é que as fases são aparentemente interconectadas. Quando se termina uma delas, o personagem passa por uma porta ou ponte e é mostrado o caminho que ele faz até a próxima fase.

É um detalhe bobo mas que ajuda a interconectar o que seriam só telas de puzzle em outros games da série.

Além disso, uma mudança interessante é que para passar de estágio, não é necessário matar todos os inimigos. Existem totens de energia espalhados pela fase, e seu objetivo é destruir todos eles e encontrar o portal.

Assim, os inimigos se tornam apenas uma dor de cabeça no jogo, podendo ser evitados na medida do possível e da vontade do jogador. Obviamente que matá-los dá pontos, que servem para ganhar vidas, pois a cada 10.000 pontos conquistados, o jogador ganha uma vida extra.

Morrer durante as fases não é tão penoso dessa vez, pois tudo que o jogador perde são as bombas especiais que possui no momento. Por outro lado, sua quantidade total de bombas, foguinhos de alcance de explosão e patins de velocidade se mantêm intactos até perder um continue. Esses, aliás, são infinitos nessa versão. Ufa!

Modos de jogo: Battle Mode

O verdadeiro chamariz de Bomberman sempre foi o modo multiplayer, e Saturn Bomberman não deixa ninguém da família esperando a vez de jogar.

Contando pela primeira vez com um suporte de incríveis dez jogadores (usando um adaptador bonitinho com a cara do Bomberman), o game escrotiza totalmente qualquer concorrência, até mesmo do recém-lançado Nintendo 64.

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Esse modo para 10 players faz suas concessões: os personagens são menores e só existe um tipo de fase, aquela clássica com tijolos cinzas e chão verde, mas todos os itens, sons e músicas estão lá.

Jogar assim usando um cabo SCART e uma TV LCD configurada para 16:9 torna a experiência ainda mais perfeita nos dias de hoje, pois eu não imagino como isso era sequer funcional nos anos 90, com as nossas TVs tendo no máximo “29 polegadas.

Modo Battle com 10 jogadores. Repare nos sprites menores.

Existe também um modo Battle mais tradicional, com mais fases e personagens maiores, que é onde os jogadores vão se sentir mais confortáveis a maior parte do tempo.

E por falar em personagens, aqui temos vários convidados, como o Master Higgins de Adventure Island e Milon de Milon’s Secret Castle, um jogo horrível de NES.

Tirando o modo de 10 jogadores, não há tantas mudanças em relação aos jogos anteriores. Não que precise, pois o que já está bom não se mexe, mesmo.

Saturn Bomberman

Modos de jogo: Master Mode

A grande novidade mesmo fica por conta do Master Mode, um modo onde você controla um Bomberman vestido de Goku (sim, não tem como dizer que não é), que precisa subir uma torre gigante, enfrentando fases mais difíceis que no modo Normal.

Aqui, seus power-ups são contados no topo da tela, e suas vidas são apenas os corações que se acham durante as fases. Assim, caso seu personagem efetivamente morra, é Game Over, sem continues.

Pode se dizer que esse modo é uma espécie de roguelike ou survival, só que sem as fases geradas proceduralmente (graças à deus).

As telas desse modo são mais contidas, sendo do tamanho da tela (ou seja, não tem scrolling). Porém isso é compensado por um design mais fechado, feito para fazer o jogador pensar mais antes de explodir bombas.

Alguns inimigos clássicos reaparecem aqui, como os balões e as moedas do primeiro jogo da série. Já os chefes são totalmente diferentes, contendo “mestres bombermen” que precisam de estratégias diferentes para serem derrotados. Um deles é até um bêbado, olha que legal.

No fim, o que vale é ir o mais longe possível na torre e salvar seu recorde na bateria interna do Saturn. É bem legal e diverte muito, mesmo após o jogador zerar o modo principal.

Trilha sonora

A mídia em CD tornou possível o uso de trilha sonora de melhor qualidade, composta por Jun Chikuma, que também havia feito a trilha de vários jogos anteriores da série, sejam os feitos pela Hudson ou pela Produce.

A estética sonora do jogo se mantém, com instrumentos eletrônicos que se misturam com a temática das fases.

O mundo do velho oeste, por exemplo, possui um arranjo eletrônico misturado com o clássico tema do filme “O bom, o mal e o feio” de Clint Eastwood. Sim, é aquela musiquinha com assobio, você sabe qual é:

Existem também muitas cenas com vozes que mesmo em inglês, entregam muito bem as falas. Só é chato que o último chefe tenha um diálogo de quase 30 segundos que não pode ser cortado em todas as vezes que você tenta enfrentá-lo.

Coisas da época, eu acho.

Conclusão

Saturn Bomberman é a epítome de uma série que teve seu auge na geração 16-bits. Sua jogabilidade é impecável, e seu modo para um jogador é divertido possui o tamanho certo.

Não só isso, mas também tem o modo batalha que é divertidíssimo, podendo ser jogado por até dez pessoas. Tudo isso faz com que esse seja o Bomberman definitivo até hoje.

Infelizmente a série foi ladeira à baixo nos anos seguintes, com jogos que usavam gráficos 3D pré-renderizados (Bomberman Wars e Bomberman Party Edition, para PlayStation) ou simplesmente gráficos 3D feios mesmo (Bomberman 64, Hero e Second Attack!!, para Nintendo 64)

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A venda da Hudson Soft para a Konami só piorou as coisas, deixando a série por um hiato de 2010 até 2017, quando foi lançado Super Bomberman R para o Nintendo Switch.

Esse se esforça em voltar às origens com um gameplay simples, mas peca em escolhas de design, indo do visual dos personagens até a câmera do jogo, que não parecem conversar bem entre si.

Entre todas as 66 opções de Bomberman que podem ser encontradas na internet, jogue Saturn Bomberman. Você não vai se arrepender.

Author: Tony Santos

Proto-engenheiro eletricista, amante dos bons jogos e crítico incondicional de coisas que eu não gosto.