Meu, será que caiu a ficha que eu escrevo sobre videogames com certa regularidade, tem mais de 10 anos?

Antes mesmo de eu ter meu próprio blog lá em 2010, eu fazia uns textos aqui e ali em fóruns e fanzine e tal. Pois é. Enfim, puxo isso porque tem a ver com a minha reclamação, porque durante anos, todos os meus textos eram de jogos que gastei meu suado dinheiro.

Nem na época que eu escrevia pro JBox, tudo que escrevi lá foi de coisas que eu comprei.

Tá que desde que escrevo pro Arquivos do Woo, o Diogo consegue umas keys aqui e ali, e mais recentemente, eu passei a ir atrás de algumas keys através de sites.  Porém, apesar disso, todos os sites que utilizo (Keymailer, Woovit e Lurkit) se utilizam de uma métrica: Todas exigem produção de conteúdo em vídeo, o que quer dizer basicamente que os textos vindos de keys que recebi foram bônus, basicamente.

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Queria que tivessem sites dedicados a quem faz cobertura em texto. E sim, essa é minha reclamação. Mas o que essa reclamação tem a ver com o texto que estou lendo? Diz um de meus dezessete leitores.

O fato é que recentemente, eu tenho conseguido menos keys no Woovit e meus pedidos tem sido rejeitados no Keymailer, então como um solteiro rejeitado, fui em cima da outra menina disponível… E ela me aceitou. Enfim, no Lurkit, apesar da interface meio complicada, eu consegui alguns jogos que vocês poderão ou não ler aqui em breve.

Kickstarter… Ah, o Kickstarter. Hoje em dia, qualquer um pode criar uma campanha de financiamento para qualquer coisa, e dependendo da apresentação inicial, ele pode ou não bem sucedido. E mesmo assim, o produto apresentado inicialmente certamente não será o final.

O que é o caso de hoje, já que Rainbow Billy: The Curse of the Leviathan não possuía esse nome, quando foi financiado em 2018.

Lá, o nome do jogo era Steamboat Billy: The Curse of The Leviathan, numa óbvia homenagem a clássica animação do Mickey, Steamboat Willie. (Infelizmente não era homenagem ao Ricky Steamboat), e a inspiração era bem clara, as animações do fim dos anos 20, começo dos anos 30, tal qual Cuphead.

88 mil dólares canadenses, um prêmio da Ubisoft (de 50 mil dólares americanos), um financiamento do Canada Media Fund. (órgão responsável por financiar projetos midiáticos canadenses, que auxiliou em outros jogos inclusive, como The Messenger e Jotun) no valor de 870 mil dólares americanos e três anos depois, Rainbow Billy: The Curse of the Leviathan chegou aos consoles e PC, muito diferente do que era.

Será que essa jornada valeu a pena?

Trarei de volta as cores do meu mundo

Rainbow Billy, em termos de história, se divide em dois pontos: A narrativa que o jogo demonstra e o seu real significado. Falaremos um pouco das duas.

A princípio, num certo dia, um festival estava acontecendo, que celebraria as verdadeiras cores de Billy, o terrível Leviatã ataca e amaldiçoa aquele mundo, removendo todas as cores e deixando-o preto e branco. Segundo o próprio Leviatã, aquilo era para Billy parar de se esconder, e encarar a realidade, crescendo.

Nesse ponto, Billy, com a ajuda de seu fiel companheiro Giro, seu barco da amizade chamado Friend-Ship, e uma vara de pescar desbocada chamada Rodrigo, parte em uma jornada para recolorir o mundo e derrotar Leviatã.

Só que ele não conseguirá isso sozinho, para tal, será necessária a ajuda de amigos, amigos esses que ele fará em sua jornada. Porém, assim como o mundo, as criaturas também perderam as cores e caberá a Billy, recolori-las.

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O segundo tema do jogo, só é compreensível após terminar o mesmo, não vou dar mais spoilers do que isso, mas depois do fim, as coisas passaram a fazer muito mais sentido. Não apenas isso, mas pistas sobre o próprio Billy são dadas ao longo do jogo.

O jogo também lida com momentos de auto aceitação, e apesar de tropeçar um cadinho aqui e ali na hora de entregar a mensagem, no geral é algo mais positivo do que negativo.

Como a inspiração do jogo vieram de animações dos anos 20 e temos inspirações dos anos 90 também, os personagens secundários… São arquétipos comuns em animações, mesmo as criaturas. Você pode conhecê-las melhor, mas no geral, acabam soando bobas, mas o suficiente para serem chamadas de superficiais. Tampouco serão profundas.

O pouco que os personagens apresentam, é prazeroso, considerando que temos aí 60 criaturas colecionáveis (GONNA BEFRIEND’EM ALL), mais NPC’s peculiares a cada região.

Paper Mario + O poder das palavras

A primeira coisa que me veio a mente quando joguei Rainbow Billy, foi a série Paper Mario.

O jogo possui cenários tridimensionais e personagens bidimensionais, e a progressão é dada como num RPG com seções de plataforma e em algumas instâncias, puzzles.

Porém, nenhuma dessas seções é particularmente difícil (o jogo tem seleções de dificuldade pra combate e mini games, mas elas não afetam especificamente o platforming e os puzzles), o que é agradável pra minha pessoa.

Existem várias coisas que eu posso falar sobre como a navegação do jogo funciona, começamos pela questão da navegação pelo mundo. O mundo está preto e branco por causa do Leviatã, e você precisa recuperar aos poucos as cores dele. Com o Friend-Ship, você navega pelos mares e possui um medidor de combustível, caso esse combustível acabe, você será capturado pelos braços de Leviatã e transportado pro último porto seguro que esteve.

O combustível pode ser enchido perto de destroços onde a água está azul, ou nos arredores de ilhas que já foram coloridas. Quando o jogo começa, você não tem combustível o suficiente para acessar o mapa inteiro, mas conforme se avança, a quantidade máxima vai aumentando.

O combate do jogo é uma das coisas mais fascinantes a respeito dele, mesmo que as vezes acabe se arrastando por um motivo ou outro. Você não bate no seu inimigo em si, tampouco ele em você. O fato é que acaba sendo quase que um duelo de palavras. Cada criatura possui uma característica única, um problema em si que precisa ser contornado.

Daí, o combate se divide em duas fases, na primeira, você fala com seu inimigo acerca do problema dele, usualmente tem três opções, uma delas é agressiva e duas ajudam a contornar o problema. As respostas que contornam o problema ajudam no combate, revelando tokens da barra de vida do oponente que precisam ser preenchidas. Uma ajuda um pouco e a outra ajuda bastante. Caso você use a resposta agressiva, o inimigo vai diminuir a sua moral, que é a barra de vida.

A segunda fase é um combate de turnos, onde dependendo do combate, você pode colocar até nove criaturas (se tiver) em campo. Cada criatura pode ter de um a três tokens diferentes (depende do nível, explicarei mais adiante, não se preocupe) e você precisa escolher os tokens que fazem parte da barra de vida do inimigo. Cada criatura tem um mini game diferente pra executar o ataque, e quanto mais criaturas naquela fileira, mais difícil o mini game será.

Após o seu turno, o inimigo atacará, diminuindo sua moral, mas não tem problema. As criaturas (quando no nível 2) possuem habilidades passivas diferentes, como recuperação de moral, uma cor a mais adicionada, revelar os tokens do inimigo, dentre outros. Aí mora a estratégia, de sacrificar um ataque que pode não ser efetivo pra revelar tokens do inimigo, recuperar energia, deixar uma fileira com uma criatura só, porque ela ataca mais efetivamente sozinha.

E as batalhas contra chefes são criativas, porque apesar de não saírem dessa mecânica em si, elas pensam fora da caixa e adicionam coisas criativas pra não deixar elas como as batalhas normais (ataque os marshmallows no primeiro boss por exemplo, ou NÃO ATACAR um certo boss).

Olhando os vídeos do desenvolvimento do jogo e Kickstarter, MUITA coisa mudou de lá pra cá.

A Amizade nos torna mais fortes

Conseguir as criaturas pra lutar ao seu lado na jornada, é apenas parte do serviço, porque lembre, que elas possuem habilidades passivas e tokens extras.

Para conseguir subir os níveis das criaturas, você pode presenteá-las com itens que você consegue desenterrando em locais específicos, em biscoitos da sorte quebráveis, e pescando em pontos específicos.

O mini game da pesca é bem auto explicativo, pesque e seja feliz. Além dos itens, você pode dar peixes (feitos de jujubas) pras criaturas. É tudo bem simples, e quanto aos presentes, cada criatura quer dois presentes específicos (você pode dialogar com elas pra saber o que querem,.) e esses presentes ajudam na narrativa, já que com as criaturas se abrindo para você, saberá um pouco mais do que levou elas a ficarem daquele jeito quando descoloridas.

Além disso, existe um outro coletável, que são os pensamentos. No prólogo do jogo, você tem contato com os pensamentos positivos, mas logo após o mundo ser amaldiçoado pelo Leviatã, surgem os pensamentos negativos, que você precisa recapturar e converter em pensamentos positivos.

Como se faz isso? Simples, procurando pelo mundo afora. Eles estarão em diversos pontos do mapa e em alguns casos, serão inimigos a serem derrotados em lutas contra algumas das criaturas. Esses pensamentos possuem utilidades, já que a conversão dá power-ups pra algumas coisas, tipo o número de tokens a serem carregados por turno, e a quantidade de itens a serem pescados.

Rainbow Billy

Uma sinfonia de cores e sons

As curtas animações que o jogo possuem em cenas importantes, são muitíssimo bem feitas, lembrando o traço de Steamboat Willie. Pena que (possivelmente por causa do orçamento) não tivemos tantas quanto gostaríamos, mas ainda assim aplaudo o esforço.

Um pequeno problema (meu), é que eu talvez prefira o design (de personagens) da época de Steamboat Billy, mas a mudança foi necessária a se adequar ao roteiro dos anos 90 em que o jogo se passa. Dito isso, Rainbow Billy é um jogo MUITO bonito.

Os cenários, seja quando o mundo está preto e branco ou colorido possuem um charme especial e uma identidade única, ainda que uma vez ou outra as coisas escorreguem um pouco (quando é possível ver embaixo do chão nas ondas mais ferozes). Os cenários dos combates, dão uma dica sobre o tema secundário do roteiro, e uma vibe semelhante ao que os cenários de Super Mario Bros 3 tinham.

Os personagens possuem um traço com aqueles olhos a la Steamboat Willie, que a princípio, admito, não foi o que me veio a cabeça, mas sim os malditos CalArts. Mas aí percebi que não, (felizmente) não eram. E apesar das animações deles em geral estarem limitadas, não é um demérito em si.

A trilha sonora de Rainbow Billy é sensacional, com músicas que possuem uma poderosa variante, de tristes, os temas de combate possuem variantes dependendo da região, os temas vocais são lindos. Mas em especial, os temas do Leviathan são os melhores, com o vocal masculino e a voz forte. Não vou dar títulos de músicas porque alguns podem estragar um pouco da descoberta do jogo.

Rainbow Billy

Se puder, jogue Rainbow Billy: The Curse of the Leviathan

Até o momento desta review, eu terminei cerca de 243 jogos, então dá pra dizer que dos jogos lançados em 2021 (que eu joguei e terminei), Rainbow Billy com certeza está entre os melhores. Então, se puder, jogue-o em sua plataforma favorita.

Não é um jogo muito longo (cerca de 12 horas talvez?), nem complicado, mas que vale a pena cada minuto jogado. Gráficos, sons e jogabilidade afinados.

Rainbow Billy The Curse of the Leviathan está disponível para PC, Nintendo Switch, PlayStation 4 e Xbox One. 


Essa análise foi feita com uma cópia digital de PlayStation 4 gentilmente cedida pela Skybound Games.

Author: Geovane Sancini

Geovane, mais conhecido como Sancini (ou Kyo, se você for velho o suficiente pra lembrar do nick antigo dele) é um escritor e speedrunner que joga videogames desde que se entende por gente.