Tradição e costumes

Final de outubro é uma época muito estranha pra nós pessoas que não vivemos no continente norte americano.

A tradição do Halloween (o dia em que esse texto deveria sair mas este humilde servo falhou em fazê-lo então tenham paciência) é algo que conceitualmente está entranhado em nossas mentes por conta de filmes e séries que demonstram tal evento.

O momento em que a decoração das casas e as pessoas estão trajados com adornos e fantasias referenciando monstros, seres e personagens do mundo do terror, com o objetivo de sair com as crianças pra catar doces pela vizinhança.

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No Brasil apesar de ter também o dia das bruxas, aqui não é um grande evento como lá fora, no máximo as pessoas fazem uma festinha particular e se vestem de alguma coisa aleatória. Quanto a parte dos doces a gente já tem o dia de São Cosme e Damião, então acho que descartaram a ideia de fazer uma segunda vez no ano.

Pra mim, Halloween sempre foi sobre consumir histórias e filmes de terror. Na minha infância era mais difícil pois eu morria de medo dessas coisas, mas dá adolescência pra cá, filmes não surtem mais esse efeito de dar medo ou deixar apreensivo, no máximo é só aquela tenção de estar esperando por um susto que você consegue ver há quilômetros vindo. Mas diferente dos filmes, os jogos funcionam de outra maneira comigo.

É como tomar banho de água fria

Talvez por que eu esteja no controle da situação, jogos de terror me deixam nervoso o suficiente pra eu simplesmente não querer jogar a metade deles.

Quando eu tomo coragem pra jogar um, as primeiras horas são sempre uma grande barreira, sem saber oque esperar ou como lidar com oque estar por vir, eu acabo demorando talvez mais que o normal pra passar de certas coisas. Mas a medida que avanço eu vou me acostumando e sentindo mais seguro de prosseguir pelo jogo, é como quando você vai tomar um banho de água fria, tu coloca a ponta dos pés pra sentir o quão gelada está, depois vem com as mãos e vai molhando os pulsos até tomar coragem pra jogar o corpo todo dentro.

Usando essa analogia, eu diria que consigo jogar qualquer coisa de terror se for em doses homeopáticas. E como estou na vibe de ter experiências novas com vídeo jogos, surgiu a oportunidade perfeita pra isso. Nossos amigos da Bloober Team, um estúdio polonês que vem produzindo experiências de terror nos últimos 5 anos como os jogos da série Layers of Fear, Blair Witch e The Medium, cederam a cópia de um de seus jogos chamado Observer.

Múltiplos lançamentos

Observer é um jogo que teve vários lançamentos, originalmente saiu em 2017 pra Xone, PS4 e PC, depois em 2019 para Nintendo Switch daí em 2020 lançaram uma nova versão do jogo para PC, PS5 e XSX/S chamado “System Redux” que seria uma remasterização do mesmo, com gráficos mais bonitos e alguns conteúdos extras, e finalmente essa versão atualizada foi portada pra geração anterior de consoles em julho de 2021, que é exatamente a versão que estou analisando.

De Replicante para Observer

Logo de cara, Observer me chamou atenção pelo seu setting futurista cyberpunk inspirado principalmente no filme Blade Runner, e como se não bastasse você ainda encarna o ator que nos entregou a maravilhosa performance como replicante e todo seu discurso de lágrimas na chuva, Rutger Hauer.

Infelizmente Rutger faleceu em 2019 aos 75 anos, e esse jogo é provavelmente uma das últimas produções audiovisuais em que ele participou, também é o primeiro e único envolvimento com vídeo games do ator.

A direção de voz do jogo mandou muito bem, a dele em específico é algo de chamar atenção até mesmo pra quem não tenha acompanhado seu trabalho.

A História

Em Observer você controla em primeira pessoa o protagonista Daniel Lazarski, um policial de meia idade que está no meio de sua ronda cotidiana quando recebe uma ligação clandestina de seu filho desaparecido.

Antes de conseguir qualquer resposta do mesmo a ligação cai, mas ele consegue rastrear o sinal pra um subúrbio barra pesada e segue em direção a esse endereço rumo ao desconhecido.

O destino é numa favela da Cracóvia, um prédio residencial de quatro andares e um subsolo. Chegando no apartamento onde seu filho supostamente estaria, você se depara com a cena de um crime. Um corpo esquartejado e decepado, impossibilitando o reconhecimento e assim inicia-se a busca de um assassino e mais informações se aquele corpo é de Adam Lazarski.

Investigação com implantes cibernéticos

E é aí que o jogo apresenta suas principais mecânicas. Não existe nenhum meio de combate em Observer, a única coisa que você faz é usar as habilidades dos implantes oculares do protagonista, você tem uma visão que detecta e identifica dispositivos eletrônicos, outra que consegue identificar padrões biológicos, vestígios de sangue, pelos e afins, e uma última que seria para enxergar em locais mais escuros.

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Você é livre pra investigar os andares do prédio, dando pra entrar em alguns apartamentos, abrir gavetas e armários no maior estilo Shenmue, invadir computadores pessoais e ler um monte de e-mails. Tem também como conversar com alguns resistentes dos apartamentos que vão te dar mais contexto de como é viver nesse mundo decadente de próteses e implantes cibernéticos.

Existe um elemento que você precisa cuidar da saúde do seu personagem tomando algumas pílulas que servem pra te manter sincronizado com seu aparelhos. Quanto mais o tempo passa mais eles começam a falhar, deixando sua visão turva e pixelada. Não sei dizer se existe uma maneira de falhar se deixar de tomar os remédios pois você sempre encontra o suficiente conforme explora os lugares

A parte de sustinho dele vem muito da ambientação, andando por corredores desolados, o jogo faz um bom trabalho em te imergir nesse ambiente, as vezes colocando sons estranhos aumentando a tenção, algumas vezes até jogando uns jumpscares pra dar aquele susto barato. Mas os melhores momentos (ou piores) que te deixam na ponta do sofá são as partes de investigação mental.

Do ponto de vista de um Observador

Daniel Lazarski não é um policial investigativo qualquer, ele é um Observer, cuja habilidade é de hackear a mente das pessoas, possibilitando vivenciar momentos de suas vidas ou até saber oque levou a causa da morte. E essas são as partes mais criativas, o jogo se desdobra pra te mostrar sequências psicodélicas e muito tensas.

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Uma hora você chega num beco sem saída e escuta um barulho vindo de traz, e quando se vira pra checar acaba se deparando com uma área totalmente diferente do que já tinha passado. Imagino que isso é uma herança de Layers of Fear, que tem esses momentos de distorcer a realidade, mas aqui a ideia de estar invadindo a mente da um contexto menos sobrenatural e mais real de como seriam duas mentes completamente diferentes se fundindo.

Do bom ao ruim

De tudo que Observer faz muito bem com a ambientação e a tensão, existe uma decisão em específico que me deixou um pouco irritado que são as partes de stealth obrigatórias. De um certo ponto até um pouco antes do final, mais nas partes de hackear a mente, vai ter uma criatura que fica no seu encalço enquanto você tenta completar um objetivo.

Imagino que os desenvolvedores queriam algo que te colocasse em perigo, e realmente, ter que me esconder de algo que eu não tenho meios de me defender me deixa com a adrenalina lá em cima. Mas no momento que você é pego não existe uma grande penalidade, você não tem nada a perder e o jogo te coloca exatamente onde você morreu meio que banalizando e deixando só chato. Pra mim são as piores partes do jogo.

Além disso, a versão desse jogo pros consoles da geração passada não são muito bem otimizadas. Muitas vezes em que estiver andando pelo prédio, o jogo fica carregando área por área e isso gera uma quantidade de lag que é um pouco desconfortável.

Se tu sai correndo pra ir de um andar pro outro então vira slideshow de tão travado que fica, então se você se incomodar com isso, é melhor jogar num bom PC ou talvez em consoles atuais.

Apesar dos pesares

No mais, eu diria que Observer System Redux é uma experiência 90% boa, com uns 10% ruim que só incomodam na hora mesmo.

A estética cyberpunk puxado pros anos 80 por mais que não seja uma ideia única, com a adição de elementos de terror e o fato da história se passar na Polônia, já dá um ar renovador para o setting.

Andar pelos corredores vazios do prédio e passar pelos momentos psicodélicos dentro da mente das pessoas já são assustadores o suficiente que adicionar um monstro que te mata se te achar só deixa o jogo um pouco cansativo no finalzinho. Ainda assim pra quem gosta de jogos de terror e com visuais diferentes do que a gente já está acostumado a ver, esse é um dos que você não pode deixar de lado.

Essa análise foi feita com uma cópia digital de PlayStation 4 gentilmente cedida pela Bloober Team.

Author: Aleskis

Apenas um garoto cheio de desejos com um certo favoritismo para tudo que tenha estética de anime. No momento se encontra preso num inferno astral onde não consegue parar de jogar gacha games