Biomutant é uma aposta arriscada em vários sentidos. Primeiro, por parte da THQ Nordic, por investir em uma IP completamente original. Depois, por parte da Experiment 101, sendo o primeiro projeto deles e pelo fato do jogo ser um RPG de mundo aberto, num mercado que está absolutamente lotado deles.

A Experiment 101 não é necessariamente novata nisso, já que o fundador do estúdio, Stefan Ljungqvist foi uma das mentes responsáveis pela série Just Cause e pelo jogo de Mad Max.

A pergunta que não quer calar, entretanto é: Como Biomutant se sai sozinho? Confira conosco na análise.

A ascensão dos Furries

Após gerações e gerações de humanos jogando tudo quanto é tipo de porcaria na Terra, chegou um ponto em que o planeta começou a se tornar inabitável para as pessoas, assim a humanidade abandonou o planeta e deixou o planeta a Deus dará.

Como acontece com toda espécie deixada numa condição adversa, os animais sobreviventes acabaram por se adaptar ao ambiente e as mutações ocorreram, com as criaturas se tornando mais inteligentes e desenvolvendo sociedades, nas ruínas do que os humanos deixaram.

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Só que o preço pago por inúmeros anos de poluição, é que isso gerou a criação de quatro criaturas tenebrosas, denominadas Devoradores, que começaram a acelerar o processo de destruição do mundo, pois eles ocupam os quatro galhos principais da Árvore da Vida, o pilar central do mundo e que mantém o mesmo vivo.

É seu papel, um ronin com um passado trágico, derrotar tais criaturas e curar o mundo, mas você decide O MEIO DE CHEGAR AO SEU OBJETIVO.

Um mundo de possibilidades para você

Biomutant

Tirando o primeiro elefante branco da sala: O começo do jogo não é dos mais animadores. Sim, é esquisito ter que criticar um tutorial, mas aquele trecho inicial me cativou o bastante.

Dito isso, primeiro você tem uma miríade de coisas para fazer, que influenciam nos seus status iniciais, como a espécie que você pertence, a classe e mesmo os seus atributos iniciais. Tudo isso influencia na sua aparência e mesmo no seu passado, com a aparência de seus pais.

Claro, como são animais antropomórficos não fofinhos feito os de Sonic, o sistema de criação de personagens tende a ter um ar mais animalesco, ainda que seja decente. Embora apesar de tudo, ainda é possível criar aberrações da natureza, como meu primeiro char criado antes das sessões de livestream’s que fiz do jogo no Twitch.

O jogo possui um sistema de carma semelhante ao da série InFamous, que influencia não somente o final que você vai obter no jogo, mas como os personagens ao seu redor o veem e as habilidades psiônicas, que são as magias do jogo. Luz ou escuridão, o carma pode ser adquirido em diálogos ou em totens que você consegue encontrar no mundo do jogo.

No quesito de combate, você possui uma gama impressionante de armas para chutar os traseiros até a semana que vem. Você começa com uma arma de combate corpo a corpo e uma a longa distância referente a sua classe, mas você pode fazer upgrades nela com peças que encontrará em sua exploração e com sucata que você acha nos totens de recursos e dropando de alguns inimigos.

O crafting a princípio não parece ser algo importante, mas conforme se avança no jogo são necessárias armas mais fortes, então acumular recursos para uma arma melhor é uma boa pedida aqui.

Quando o mundo se abre, existe uma imensa gama de missões para se fazer, e ainda que o jogador tenha liberdade para fazê-las na hora que quiser, nem todas poderão ser feitas, pois coisas acabam faltando, como veículos, montarias ou roupas especiais.

Infelizmente, aqui mora um dos pontos fracos do jogo, não há um incentivo emocional para se fazer tais missões. Claro, você vai querer fazê-las do ponto de vista racional, conseguir XP, craftar itens e pontos de upgrade. Faço aqui uma comparação com a série Fallout, que por mais que desajeitado o combate as vezes seja, usualmente ele nos proporciona missões com NPC’s que vez ou outra conseguimos nos afeiçoar a eles, seja amor ou ódio.

Combate variado, puzzles simples

Biomutant

O combate de Biomutant existe em três partes, mano a mano desarmado, o combate com as armas e combate a distância. Você tem combos simples, e vai desbloqueando novas habilidades conforme se aumenta de nível.

Não é difícil pegar o jeito, mas cabe ao jogador escolher quando ele vai se utilizar de ataques físicos, ou se é melhor ele utilizar da boa e velha magia de pólvora (conhecido como armas de fogo). Cada arma tem um funcionamento único, e novamente, aí vai muito do jogador decidir que tipo de arma de fogo ou arma branca se adequa melhor ao estilo dele.

A dificuldade do jogo é balanceada, mas o jogador pode se pegar morrendo em situações bobas, seja por descuido (cair na água, que drena a sua estamina ou na gosma venenosa que mata rápido), ou um chefe em específico ( #nerftorresminho). Mas, ainda assim, não encontrei grandes dificuldades nas minhas 25 horas de jogatina (foi o tempo que levei pra terminar a campanha principal, fazendo um punhado de sidequest’s ao longo do caminho).

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As batalhas contra os devoradores ocorrem em veículos especiais, uma ocorre numa espécie de armadura robótica, outra num jet-ski, uma acontece numa montaria e o último acontece num veículo subaquático que eu esqueci o nome. Essas batalhas, apesar de emocionantes, são um tanto repetitivas, porque o que você faz é ver o padrão do chefe, desviar dos ataques e contra atacar.

A batalha mais criativa é a do Torresminho (segundo devorador), que exige um pouco de criatividade, mas é a mais difícil e me tomou MUITOS itens de cura porque demora até você pegar o jeito. E a segunda fase dela, pior que a primeira. E a luta final foi mais um teste de paciência porque envolve lutar contra o chefe final três vezes, uma sozinho, uma antes de batalha contra o quarto devorador e as outras duas para finalizar o jogo.

Em algumas etapas do jogo, você encontrará alguns objetos do mundo antigo, que são coisas como relógios de sol, ou telefones, ou Tevês, rádios. Ao interagir com tais objetos, você precisará resolver um puzzle.

Seria algo a se preocupar no meu caso, que sou notavelmente ruim nos jogos do gênero puzzle, mas eles são extremamente simplistas, e ficam AINDA MAIS FÁCEIS caso sua inteligência (no jogo) seja alta.

Porém, no estado atual (passível de ser consertado em futuros patches de correção), alguns puzzles estarão bugados a ponto de não poderem ser resolvidos (no momento a solução é salvar e carregar o save).

Fantástico mundo de baixo orçamento

Biomutant

De novo, tirando aqui o segundo elefante branco da sala (aparentemente essa sala é tão grande que cabem dois elefantes brancos, mas divago): Qualquer um que olhe para o jogo rodando, verá que os cenários são aquém do que os consoles da geração passada (PS4/Xone) são capazes.

As texturas não possuem a qualidade vista em jogos como Horizon: Zero Dawn ou mesmo o Ratchet & Clank de 2016, mas até aí a THQ Nordic não possui o cheat de dinheiro infinito que a SONY tem.

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Dito isso, ainda assim, os cenários de Biomutant são de tirar o fôlego. O mundo é vibrante e colorido em sua maior parte, com exceções óbvias nos locais onde a poluição deixou tudo cinza. As construções que mostram que aquelas criaturas que hoje habitam o mundo se adaptaram ao que restou.

Os modelos dos personagens não são o que você esperaria ao ouvir a palavra “furry”, usualmente associada com os seres antropomórficos de Sonic ou o estilo cartunesco que vemos os Furries utilizarem no Twitter. Aqui literalmente são animais humanoides. E apesar da estranheza inicial, o estilo casou com a proposta do jogo.

A trilha de Biomutant, composta por Björn Palmberg é fantástica. As músicas tem um toque, uma sonoridade com um pé no oriente, visto a influência de artes marciais no combate e organização do jogo. Apesar disso, a trilha possui um outro tom melancólico, como se soubesse que o mundo em que ela está inserida está agonizando.

Quanto a dublagem do jogo… Existe uma razão pela qual o jogo te dá a opção de “mutar” o narrador do jogo. A princípio você acha bacana, mas conforme o tempo passa, a voz do narrador é praticamente a única, e ela vai te deixar maluco, porque ele não narra apenas os diálogos, mas ele solta linhas aleatórias, conforme você vai andando pelo mundo. E não importa a língua, eu joguei com as vozes em inglês, japonês, espanhol, russo, polonês e mandarim. Você vai ficar irritado de qualquer jeito.

Honestamente, eu preferiria que deixassem somente o idioma fictício criado pro jogo com os textos na tela, como acontece em Klonoa, por exemplo. Apesar de você não entender o que as criaturas falam, dá pra perceber pela tonalidade, o que elas querem dizer. Um narrador só serviu pra irritar os jogadores.

Como muitos jogos da THQ, Biomutant está traduzido para o português (sem dublagem, mas ei, talvez tenha sido benção disfarçada). No geral, a tradução está 99% excelente, com termos bem localizados, com exceção de uns dois errinhos que encontrei, e se tratando de uma jornada de mais de 25 horas, com toneladas de texto, isso quer dizer algo.

Conclusão Honesta

Biomutant

Se Biomutant fosse um jogo vendido na PSN ou na Live por 250, 200 Reais (seguindo basicamente a tabela de 50, ou 40 dólares respectivamente), eu recomendaria a compra sem pensar duas vezes.

Num mundo ideal onde os jogadores podem comprar 2 lançamentos AAA num mês sem ter rombo no orçamento, Biomutant a 40, 50 dólares seria uma compra certa.

Porém não estamos num mundo ideal, e Biomutant custa 300 reais na PSN Brasileira (332 na Xbox Live), indo para a tabela dos 60 dólares, e francamente. Por esse preço, eu recomendaria a compra em uma promoção. Se você quiser arriscar 200 reais na versão de PC, vai fundo, porque o jogo é legal e pode valer o investimento.

Enfim, entre acertos e erros, Biomutant é um RPG bem divertido, que vai render horas de diversão (após o tutorial), mas tenha em mente que existem jogos que fazem o que Biomutant fez, mas que custam menos atualmente.

Biomutant está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One, com versões para PlayStation 5 e Xbox Series a serem lançadas posteriormente.

Essa análise foi feita com uma cópia digital de PlayStation 4 cedida pela THQ Nordic.

Author: Geovane Sancini

Geovane, mais conhecido como Sancini (ou Kyo, se você for velho o suficiente pra lembrar do nick antigo dele) é um escritor e speedrunner que joga videogames desde que se entende por gente.