Qual a chance de você, amigo leitor que é solteiro de estar passando por uma rua, quando aquela menina desajeitada que era sua amiga no colégio acenar pra ti, mas hoje, anos depois, ela tá uma gata, linda de morrer?

E após uma breve conversa, você acaba descobrindo que ela tinha uma paixão secreta por ti, e então vocês tem uma noite tórrida num motel porque você não quer mostrar a sua casa bagunçada.

Claramente, são chances ínfimas, eu deveria ter feito referência a ganhar numa loteria em que não apostei. Mas enfim, usualmente os meus reviews, são geralmente de jogos que eu tenho, ou que o Diogo arranja pra mim. Raramente alguém chega pra mim e fala, tá aqui esse jogo, faz conteúdo sobre ele. E quando eu digo raramente, eu quero dizer NUNCA. Mas então a minha surpresa, quando abri minha conta do Keymailer, haviam duas chaves lá para mim.

Um deles é um jogo que ainda não posso falar (porque eu não baixei ainda nem joguei nem sei se roda no meu notebook), e o outro foi a versão completa de um jogo que saiu em Acesso Antecipado em 2019 e agora em fevereiro desse ano foi lançado em sua versão completa. Viola: The Heroine’s Melody é trabalho quase que inteiro do holandês Jelle van Doorne.

Será que ele vale a pena o seu tempo e dinheiro? Confira conosco.

Não é a heroína que queremos, mas a que temos

Viola: The Heroine's Melody

Viola é uma jovem que precisa lidar com a morte recente da mãe, e encontra seu refúgio na música… Porém a música não é um de seus talentos, pois logo na primeira cena do jogo, vemos ela se frustrar e quase quebrar o violino que treinava. Nisso, ela acaba indo parar numa terra estranha (mas sem a participação de Truck-kun) e descobre que sua chegada naquele mundo trouxe monstros com ele.

E para voltar para casa, Viola terá que se unir a um grupo excêntrico e salvar aquele mundo por tabela. Nessa jornada, ela poderá descobrir mais sobre si mesma e superar a morte da mãe.

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A história do jogo não é das mais profundas, de fato é uma história simples, mas escrita de maneira decente, e o único possível twist é visto de longe. Mas ainda assim, ela guarda alguns momentos que fazem com que a jornada valha a pena.

A equipe de Viola é composta de um grupo diverso de pessoas, que inclui um cachorro humanoide que já foi humano, um meio demônio, uma harpia, um garoto-gato meio humano que não tem os braços (ele usa braços mágicos quando necessário), um esqueleto, um cervo. Não sei se estou escrevendo sobre Viola ou One Piece, mas divago.

As linhas que lhes são dadas, são interessantes, e em certos pontos, eu acabei me identificando com a protagonista… Pois é.

Um caldeirão de influências, cuja sopa é deliciosa

Viola: The Heroine's Melody

Mais de uma vez aqui, já citei jogos que são influenciados por outros jogos, mas que ao ter muitas influências, acabam não “copiando” direito e o jogo acaba se tornando sem graça.

Em sua base, Viola: The Heroine’s Melody é um RPG de turnos cuja movimentação fora das batalhas é feita num Side-Scroller 2D.

As batalhas dependem da dificuldade escolhida pelo jogador, existe a dificuldade “Normal”, onde nos combates, existe uma esteira com comandos vinda da direita para a esquerda e para o dano do ataque ser total, deve-se acertar as notas.

Como eu sou um total e completo asno, posso dizer que eu errei mais do que acertei. Talvez tenha sido porque eu joguei no teclado (felizmente o jogo possui opções de layout de botões pro Dual Shock 4 e controle de Xbox) e deve ser melhor no controle.

Caso você não queira passar esse perrengue, existe a dificuldade “História”, na qual funciona como um RPG de turno normal, os inimigos possuem fraquezas e depende do jogador montar a party como ele deseja.

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A navegação nos mapas se dá por fases de sidescrolling em 2D e cada inimigo encontrado no mapa triggera uma luta. Nos mapas, você pode pular, e cada pulo (até o terceiro) acumula mais altura, mais ou menos como Super Mario 64, e Viola também pode fazer Wall Jumps, pulando numa parede, e dela, pulando na direção oposta.

O design geral das fases, foi feito para explorar essas habilidades, além de elementos do cenário, como canhões (que funcionam como os barris de Donkey Kong Country) e molas, que catapultam a personagem para locais mais altos.

Viola: The Heroine's Melody

Nos combates, existem três barras, uma com os pontos de vida, uma com os Action Points (que funcionam como a Mana, Magia ou o que quer que seja em seu RPG favorito), que lançam certas magias, e os Crescendo Points, que enchem a cada golpe que você recebe, e permitem lançar magias que podem ser poderosas.

Detalhe para o podem, porque tem um outro elemento de gameplay que é influencia a parte de combate. O elo com seus companheiros de equipe.

Entre as fases de Viola: The Heroine’s Melody, existem fogueiras, onde se podem conversar com os integrantes da sua party. Para habilitar as conversas, deve-se lutar ao lado do companheiro em questão. Aí nas fogueiras, você pode conversar com ele, e a cada conversa, ele ganha uma magia mais poderosa, até que uma missão, bem no estilo das missões de lealdade de Mass Effect 2 é desbloqueada para habilitar a técnica de crescendo mais poderosa do personagem em questão.

Ainda no combate, você não compra armas no jogo, cada personagem tem sua arma única, e os status de ataque, resistência, magia e velocidade são alterados com cristais adquiridos, ou em lutas contra monstros (existe a chance de drops em lutas normais), em baús ou na loja do gato falante.

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Voltando para a parte de exploração, a personagem também se utiliza da música para diversas coisas, utilizando um botão, ela pode tocar uma música com os botões, bem no estilo de Zelda: Ocarina of Time (Ou Wonder Boy in Monster World se você for retrô o suficiente pra lembrar), e cada uma das músicas que você aprende, vai ser usada em momentos específicos do jogo.

Honestamente, fora as canções de abrir portais de pedra e sair da fase, as outras canções serão mais usadas em momentos que o jogo te pede. É um recurso legal, mas pena que não foi tão explorado.

Viola: The Heroine’s Melody possui três finais, dependentes de uma escolha, no final do jogo (então tecnicamente é possível fazer eles em um playthroughs, apesar do jogo fechar sozinho após os créditos) e se você concluiu as missões de leal… Digo, elevou a afinidade do seu grupo ao rank S. Só acho bizarra a escolha de dar ao jogador apenas um save file, e caso inicie um novo jogo, ele não apenas irá deletar seu progresso no jogo, como seus Achievements, então se você ver minha conta do Steam, ela vai estar com 8.1 horas de jogo e um achievement do jogo.

A jornada de cerca de 8 horas passou voando, mas não sem seus pequenos problemas. Além das escolhas de design (a respeito dos saves), alguns bugs encontram-se presentes, e muitas vezes, a colisão com paredes e teto é meio falha. Nada que quebre muito a jogatina, mas como é uma análise, isso precisa ser levado em conta. Bem, um dos bugs que encontrei, deixou meu jogo em um perpétuo zoom que deixou injogável, mas isso foi resolvido voltando a tela título.

Queria ter algo engraçadinho pra colocar aqui sobre os gráficos e som

Viola é um jogo bonito de se ver. Nas cutscenes e momentos em que vamos utilizar os instrumentos musicais (para tocar uma música), vemos o trabalho detalhado nos sprites. Cada personagem transborda vida e personalidade. Esses mesmos sprites são utilizados em combate. Daí, só posso achar esquisito que os sprites dos inimigos sejam imensos, e não falo dos chefes. Esses são imensos DE VERDADE, passando a ideia de que aquele combate lá é especial.

Fora do combate, o jogo dá um zoom-out, porque o foco precisa ser na ação de plataforma, então não vemos os detalhes do sprite de Viola, o que foi uma boa decisão, já que os cenários do jogo são imensos em tamanho, apesar de não serem tão longos assim.

Um ponto negativo sobre os gráficos, é que os cenários podem começar a se repetir perto do fim do jogo, e eu não sei como terminar este parágrafo, então vou dizer uma palavra engraçada: Uma palavra engraçada.

Os cenários de combate são básicos. São bonitinhos, bem feitos com detalhes o suficiente, mas eles são bem básicos numa maneira crua de dizer. E isso conta positivamente pro jogo, aliás. O mesmo não pode ser dito pra simplicidade das animações de magias em batalha. Elas variam entre aceitáveis e “só um frame literalmente passeando pela tela” (o caso da Tidal Wave do Niko),

A trilha sonora, única parte do jogo não feita pelo criador do jogo, foi composta por Fajar “Nom Tunes” Nugroho , é bem competente, com temas bem escolhidos pra cada trecho do jogo, incluindo aqui as músicas tocadas pelos personagens quando se usam as músicas. Essas músicas usadas pela party alteram os instrumentos, dependendo de quem está na equipe, o que achei um belíssimo toque.

Claro, que como todo bom RPG, a música de batalha vai te deixar neurótico de tanto ouvir até o fim do jogo, esse é um preço que jogadores de RPGs eletrônicos pagam desde sempre.

Em termos de performance no PC, o jogo rodou bem na minha carroça doravantemente conhecida como notebook, não exigindo tanto do mesmo, e inclui aí uma opção de resolução para quem não tem um monitor que suporte 1080p (o que é difícil) ou um PC mais fraco (o que é mais provável).

Dê uma chance a Viola

Em meio a um mar de títulos indie pretensiosos, Viola é um RPG sólido, que mesmo com alguns bugs, consegue divertir, e bebe das influências, sem deixar de ser ele mesmo. É um jogo que recomendo a compra, no preço cheio (se a grana tiver apertada, talvez em uma promo). É curto, mas vale a pena.

Viola: The Heroine’s Melody está disponível para PC, no Steam.

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Essa análise foi feita com uma cópia digital de PC fornecida pela Produtora.

Author: Geovane Sancini

Geovane, mais conhecido como Sancini (ou Kyo, se você for velho o suficiente pra lembrar do nick antigo dele) é um escritor e speedrunner que joga videogames desde que se entende por gente.