Antes de mais nada, vou ser honesto: Os jogos da quadrilogia original de .hack// não envelheceram bem. Sim, Infectation, Mutation, Outbreak e Quarentine cumpriram seu papel de estabelecer o universo, mas a jogabilidade ficou datada e pesada.

Dito isso, minha primeira experiência com a série foi lá por 2009, com meu suado PlayStation 2, no qual joguei o primeiro volume de .hack//G.U. (Rebirth).

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A ironia do destino só me permitiu terminar a trilogia .hack//G.U. em 2018, época em que o remaster já havia chegado ao mercado.

Mas enfim, somente agora em 2020, pude jogar o remaster da trilogia .hack//G.U…. Será que ela vale a pena seu suado dinheirinho?

Sigam-me os bons.

Renasça, Relembre, Redima e Reconecte

.hack//G.U.

A trilogia G.U. original da segmento aos eventos do anime .hack//Roots, de 2006, que contava as aventuras de Haseo na época em que ele fazia parte da Brigada do Crepúsculo, uma das muitas guildas que habitava o MMORPG de Realidade virtual The World R:2 (R:2 significando Revisão 2). Claro, não é necessário ter o conhecimento de .hack//Roots para jogar G.U., mas vai dar um tremendo contexto a muitas das coisas.

.hack//G.U. Conta a odisseia de Haseo, um Adept Rogue que está caçando Tri-Edge, o responsável por colocar sua amiga Shino em coma na vida real. Quando ele supostamente encontra Tri-Edge e luta contra ele, as coisas dão tremendamente errado e seu personagem inteiro é reformatado, retornando ao nível 1.

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Sendo assim, Haseo, um famoso PKK (Player Killer Killer) conhecido como Terror of Death, tem que reiniciar sua jornada.

A princípio, Haseo é sem sombra de duvida, um dos personagens mais insuportáveis que já joguei em um RPG. Arrogante, convencido e extremamente babaca, você passa pelo boa parte do primeiro volume de G.U. querendo dar um soco na fuça dele.

Mas, aí é que está a graça da jornada, porque conforme ele vai conhecendo as pessoas de seu grupo, Silabus, Gaspard, Atoli, Kuhn e Pi (além do excêntrico Piros, the 3rd e do enigmático bêbado Antares ), Haseo vai se tornando aos poucos menos babaca e uma pessoa melhor. E até mesmo entendemos a razão pela qual Haseo havia se isolado e se tornado um babaca.

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No segundo volume, lidamos com a ameaça da AIDA, forma de vida capaz de corromper os jogadores e fazê-los entrar em coma.

Devido ao ocorrido no final do primeiro volume, Atoli havia perdido a sua habilidade de “escutar” a presença da AIDA devido a mesma ter roubado seu Avatar.

Além dessa ameaça, existe um clima de tensão na guilda Moon Tree, já que claramente há uma cisão entre Sakaki, o líder de uma das unidades, e Zelkova, o mestre da guilda. Com isso, novos aliados, que antes eram seus adversários, se juntam ao grupo, como Sakubo, um garoto que possui uma personalidade dupla, Alkaid, antiga Campeã da Arena que deseja resgatar o líder de sua antiga guilda que fora infectado pela AIDA e ficara insano, e Endrance, o Campeão da Arena que Haseo derrotara no volume um.

Devido a influência de seus amigos, Haseo já não era mais um babaca e se tornara uma pessoa mais afável e tolerável. E descobrimos aqui, o quão filho da puta o Sakaki é (no primeiro volume, você ‘suspeita’ dele, porque ele parece bonzinho demais) e o quanto ele manipula Atoli, que a princípio parece ser aquela menina pululante que quer que todos se deem bem, mas na verdade é uma menina solitária que sofreu bullying e rejeição no colégio, pressão da família por conta de notas e comportamento e tentou o suicídio, tendo encontrado no The World uma válvula de escape.

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E no último volume da trilogia .hack//G.U. original, descobrimos que quem havia colocado Shino em coma, havia sido Ovan, o mestre da Twilight Brigade e que ELE era Tri-Edge, além de ter manipulado Sakaki. E agora ele quer que Haseo o derrote, para descobrir a verdade do The World.

Também descobrimos que Sakaki está de volta, e mais maníaco que nunca, querendo destruir Haseo e manter o controle tirânico sobre o The World. Com isso, a jornada chega ao ápice e o que está em jogo, não é só o mundo virtual, mas o próprio mundo real, vindo de uma ameaça que havia sido derrotada tempos atrás, na quadrilogia original.

Neste volume, vemos que Haseo agora é mais honesto e uma pessoa muito mais afável que no começo do jogo, a ponto de perceber seus sentimentos por Atoli, e dar um tremendo esporro em Alkaid, quando a mesma aparece para ajudá-lo num ponto da história. O esporro foi pela mesma não ter avisado que tinha voltado.

E para o relançamento do remaster, a Bandai Namco e a CyberConnect2 prepararam um quarto volume, chamado Reconnection, se passando um ano após a trilogia .hack//G.U.

Haseo passou todo o tempo trabalhando no mundo real, com Pi, na esperança de encontrar um modo de salvar Ovan, que estava em um coma profundo, entre a vida e a morte.

.hack//G.U.

Com a informação que precisava, ele retorna ao The World, porém sem os poderes de seu avatar, selado por Zelkova, Haseo é incapaz de libertar Ovan da esquife de gelo na qual ele havia se posto. Ele também descobre que The World estava extremamente instável e a CC Corp iria fechá-lo em alguns dias.

Haseo sabia que a única maneira de salvar Ovan era com os poderes do avatar, mas a pessoa que poderia ajudá-lo estava desaparecida, então é uma corrida contra o tempo para encontrar Zelkova e salvar Ovan. Nisso, descobrimos que uma ameaça ao The World ainda existe, que liga todos esses pontos.

Por fim, Reconnection é uma aventura curta, funcionando como um epílogo aos eventos de Redemption, com essa parte em específico da coletânea, podendo ser terminada em cerca de duas horas.

Simples, mas profundo

.hack//G.U.

Explicar como funciona .hack//G.U. é simples, mas ao mesmo tempo uma tarefa complicada.

O jogo é um RPG de ação, simulando um MMO. Para ir nas áreas onde temos combates, você precisa ir aos Chaos Gates e colocar palavras específicas que irão gerar uma área, usualmente essas palavras são conseguidas durante a história, ou nos fóruns do jogo.

Juntando três palavras, se forma uma área e dependendo do seu nível e do nível da área, os inimigos e recompensas serão influenciados.

O combate do jogo é simples, nas áreas do jogo (sejam campos abertos ou dungeons), grupos de inimigos estarão vagando. Você pode entrar em um combate se aproximando deles, ou atacando, se não foi percebido pelos mesmos.

Isso é importante, pois um ataque preventivo causa dano, auxiliando um pouco os combates. Você possui apenas combos simples com o botão de ataque, um botão para defesa e o botão das Skill Triggers.

As Skill Triggers são as magias do Haseo e ajudam bastante. A princípio, você tem apenas uma Skill Trigger, mas conforme avança (e usa Skill Triggers com as armas), novas habilidades vão sendo desbloqueadas.

Outra coisa ligada com as Skill Triggers é o Rengeki, uma habilidade que é ativada após um certo número de golpes ser acertado no inimigo. Um halo brilhante o envolverá, e ao usar uma Skill Trigger, ativará o Rengeki, que potencializa o dano do ataque.

O uso dos Rengekis aumenta a barra de moral do grupo, necessária para realizar outra técnica, o Awakening.

O Awakening depende do selecionado (eles são desbloqueados ao longo da história, não fique tão nervoso ao ver somente um no começo), mas são extremamente úteis em batalhas contra chefes, sejam da história ou opcionais.

Claro, que existem mil outras coisas que eu poderia explicar, como o sistema de alquimia, utilizado para fortalecer as armas (ops, expliquei), as sidequests feitas (que são exatamente isso, sidequests), embora algumas delas sejam obrigatórias para o andar da história, mas explicarei os dois pontos mais importantes da jogabilidade.

Primeiro, temos a Arena, que é um local onde basicamente lutas entre jogadores acontecem, criado para evitar o excesso de Matadores de Jogador (Vulgo Player Killers), onde uma variação do Rengeki ocorre, o Hangeki, que é basicamente você usar uma Skill para cortar a Skill do oponente.

A Arena é parte importante, utilizada nos três volumes, mas existe conteúdo opcional nela (alguns troféus do jogo são desbloqueados na Arena) para o manter entretido.

.hack//G.U.

E segundo, temos um sistema de afeição. Em um determinado ponto do jogo, você ganha cartões que pode enviar aos membros do seu grupo (que você possui contato) através da caixa de entrada de e-mails. E usualmente quando mandamos um cartão, o personagem que você mandou responde, e dependendo do tipo de cartão, uma conversa pode ser iniciada, o que vai aumentar a afeição do personagem.

Outras maneiras de se aumentar a afeição do membro do grupo, é dando presentes a ele (usualmente equipamento bom que ele possa usar), o uso de Rengeki quando ele está no grupo, e a participação em sidequests.

Existe uma maneira rápida de se aumentar a afeição dos membros do seu grupo, mas isso é reservado apenas para o pós jogo do terceiro volume. Essa afeição é carregada do primeiro ao terceiro volume, e permite no pós jogo, um evento especial com o membro que tenha a afeição no máximo.

A dificuldade do jogo é bem balanceada, existindo poucos momentos onde se vai exigir um certo grinding. E para os que não querem perder tempo com grinding, para esse remaster, a Bandai Namco adicionou um “Cheat Mode”, onde em cada volume, todos os personagens começaram em nível máximo (50 no volume 1, 100 no volume 2 e 150 nos volumes 3 e 4), com a afeição ao máximo, os melhores itens e equipamentos já no seu inventário. Ainda assim, antes de ir com sede ao pote, recomendo uma jogatina primeiro no modo normal.

Uma outra coisa que esqueci de explicar, é a questão dos Avatares.

Os Avatares são, por falta de termo melhor, Personas, utilizados em batalhas muito especiais, contra a AIDA. Essas batalhas são simples, na qual deve-se diminuir o HP do inimigo a 0 e utilizar o Data Drain.

Não é nada complexo, e o próprio jogo tem um tutorial bastante útil.

Mostrando a Idade, mas esteticamente bonito

.hack//G.U.

Graficamente, o jogo mostra em muitos pontos que é um jogo de PlayStation 2.

Temos alguns efeitos aqui e ali, o jogo rodando a 1080/4K e 60FPS constante, mas ainda assim, muitas coisas no jogo gritam PLAYSTATION 2. Especialmente os modelos dos personagens, com suas mãos que denotam que o orçamento dos jogos originais talvez não fosse tão grande.

Ainda assim, a estética do jogo envelheceu bem. Os cenários são lindos, com detalhes diversos, dependendo do local. As cidades e áreas das guildas grandes (como a Moon Tree e a Kestrel) são criativas e bem feitas, deixando um pouco a imaginação do jogador preencher como é lá dentro.

No começo do volume 1 as dungeons e áreas se repetem, mas conforme avançamos nos volumes 2 e 3, mais cenários são abertos, deixando uma boa variedade que não torna cansativo.

No volume 4, foram produzidas cutscenes em animação, diferentes das presentes nos volumes anteriores, dando um toque diferente ao epílogo do jogo.

A trilha sonora possui temas relaxantes e bem compostos, com os temas de batalha sendo o contraposto das áreas por onde navegamos. Não são necessariamente marcantes, mas conseguem justamente passar o tom exigido pela cena ou cenário.

Pela primeira vez (a não ser que você tenha jogado a versão de PS2 através de uma iso Undub) os jogadores ocidentais puderam ter a chance de ouvir a dublagem japonesa de .hack//G.U., que foi incluída juntamente com a americana.

Esse é um jogo da época que estavam começando a dublar bem jogos japoneses no ocidente, então independente do idioma de sua preferência, você não vai se decepcionar com a dublagem do jogo. Uma excelente escolha de vozes, com ótimas interpretações.

E como um bônus extra, foi adicionado o Modo Paródia, que basicamente pega cutscenes dos jogos e altera-se totalmente o contexto, gerando cenas hilárias.

A melhor maneira de se aproveitar um clássico

.hack//G.U.

.hack//G.U. Last Recode é a melhor maneira de se aproveitar três excelentes jogos da biblioteca do PS2 de maneira conveniente.

Uma boa história, jogabilidade simples, mas eficiente e uma boa gama de waifus para se casar no final. Recomendadíssimo, independente da plataforma escolhida.

.hack//G.U. Last Recode está disponível para PlayStation 4 e PC (via Steam).

A análise foi feita com base na versão de PlayStation 4.

Author: Geovane Sancini

Geovane, mais conhecido como Sancini (ou Kyo, se você for velho o suficiente pra lembrar do nick antigo dele) é um escritor e speedrunner que joga videogames desde que se entende por gente.