Eu… Não sou a mais esperta das pessoas. E jogos em primeira pessoa definitivamente não são a minha praia. Mas ainda assim, vez ou outra, algum jogo interessante pode cruzar meu caminho (ou não, porque eu sou distraído pra caramba).

E foi desse jeito que acabei cruzando com Metamorphosis, inspirado pelo livro “A Metamorfose”, de Franz Kafka, feito pelos poloneses da Ovid Works e que está sendo lançado pela All In! Games, para todas as plataformas em Agosto de 2020.

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Será que o jogo vale a pena a sua atenção e possivelmente seu dinheiro, ou é uma obra a ser esquecida, jogada no canto do quarto após um playthrough infeliz?

Confira conosco.

Vida de Inseto

Metamorphosis

O jogo te coloca no papel de Gregor Samsa, que assim como no livro original, acorda em certo dia e descobre que foi transformado em inseto, mas não é uma reprodução 1/1 do original, mas uma nova reinterpretação, com novos detalhes e trama diferente.

Ao invés de se transformar em um inseto gigante, a transformação de Gregor é gradual ao ponto dele se transformar em um pequeno inseto.

Na condição de inseto, Gregor descobre que seu melhor amigo e parceiro de negócios, Joseph (há uma discrepância entre as legendas e documentos presentes no jogo, já que os documentos e a descrição do jogo na Steam se referem a ele como Joseph, mas as legendas dizem Josef) foi acusado de algum crime que não cometeu, e precisa de alguma forma ajudá-lo, além de tentar voltar a forma humana.

Nisso, ele recebe uma carta de uma estranha organização chamada “A Torre”, a qual ajudará Gregor a se tornar humano, se ele fizer o que é dito. E aí começa nossa jornada para chegar até a torre e tentar de alguma maneira ajudar seu amigo.

Uma das coisas que me chamou a atenção em Metamorphosis, é o fato de que como duas animações populares dos anos 90, Vida de Inseto e FormiguinhaZ, o jogo mostra que longe dos olhares dos humanos, os insetos possuem toda uma vida e ecossistema únicos, amálgamas ao dos seres humanos.

Por exemplo, dentro de um gramofone (para os incautos, o pai da vitrola) está um popular clube onde os insetos vão para socializar.

Trama? Séria. Humor? Nem tanto

Metamorphosis

Em sua jornada, você encontrará diversos insetos excêntricos que poderão lhe auxiliar nessa jornada, como o Pastor maluco, o mafioso, o cineasta e a inseto rosa que quer algo de ti.

Apesar da trama ter o caso do seu amigo que precisa de ajuda e você precisar voltar a forma humana, boa parte do jogo tem um clima bem humorado, com situações onde não é incomum dar uma risada.

A tensão em si retorna pra colocar o jogador de volta com o foco em sua missão, na ultima parte do jogo, onde decisões deverão ser tomadas.

Big Brain Play, Small Brain Sancini

Metamorphosis

O jogo é um puzzle em primeira pessoa, basicamente você descobrindo o que tem que fazer para ir do ponto A ao ponto B.

Os puzzles em si não são difíceis, o problema é que eu sou burro mesmo, não sei como o Diogo me escolheu pra fazer review de puzzle, mas enfim divago.

Piadas a parte, existem indicadores de onde ir e usualmente, antes da atração principal, você tem uma pequena amostra de como fazer algo semelhante. É uma escolha de design sábia, dar o conhecimento ao jogador num ambiente seguro e depois colocar o desafio a ele de maneira real.

De maneira real entre aspas porque não existem muitos perigos reais ao jogador, e mesmo se ele morrer, não há uma punição grave pra isso.

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O design de cenários para se prosseguir no jogo é bem feito, mesmo com alguns problemas como a cidade, onde é fácil se perder, mesmo consultando o mapa.

Os controles do jogo são bem simples, a movimentação funciona como qualquer jogo em primeira pessoa, você tem dois botões de pulo (pra quê dois botões de pulo? Não sei.) Um botão de interação e um botão pra grudar nas paredes quando se pisa em um líquido grudento. Com o círculo, se ativa o mapa que mostra onde está seu próximo objetivo e é isso.
Os controles são simples e funcional, apesar de as vezes a câmera não ajudar muito.

Nem tudo são torrões de açúcar…

Metamorphosis

Apesar das qualidades exaltadas aqui, o jogo tem um problema que passou a me incomodar lá pras 3, 4 horas de jogo.

O tempo de jogatina é aumentado de forma artificial, por meio do recurso de Fetch Quests.

O que são fetch quests, você se pergunta? São missões colocadas lá no jogo pra encher linguiça e aumentar a tempo gasto, usualmente não relacionados a história principal. E Metamorphosis tem isso. Em pontos do jogo, você precisa fazer coisa A, só que para fazer a coisa A, você tem que ir em lugar X e lá descobrir que tem que fazer a coisa B indo no lugar Y. No lugar Y, você tem que fazer a coisa C para fazer a B para enfim fazer a coisa A.

A princípio você não nota, mas depois o padrão começa a se repetir e por fim você percebe que se não tivesse que fazer esse mundaréu de mini-missões, o jogo seria mais curto do que o produto final.

Abominável mundo estranho

Metamorphosis

Não, o abominável não tem sentido de ofensa aqui. É porque são insetos e nem todo mundo é fã de insetos. O fato do jogo ter essa temática pode afastar algumas pessoas, mas apesar de tudo e do medinho que insetos podem causar, o estilo gráfico de Metamorphosis é agradável.

O fato de que existe uma sociedade abaixo da nossa sociedade e que ela é habitada por gente tão pirada quanto pessoas do mundo real é fascinante e a maneira que é mostrada no jogo faz com que a gente imagine se realmente as micro sociedades que nossos olhos não vêem são análogas ao mundo humano.

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Claro, os insetos ainda vão ser repulsivos de se olhar, mas acho que se fizessem insetos fofinhos feito “Vida de Inseto” e “FormiguinhaZ”, não teria o mesmo efeito (e o jogo nem é pro publico dos filmes supracitados).

A parte sonora do jogo é uma faca de dois legumes. Porque digo isso? Simples. A dublagem, quando presente é decente e não compromete, e é interessante ver como aos pouco a voz de Gregor vai mudando do timbre humano para os grunhidos de um inseto.

O design de som é um tanto repulsivo, talvez justamente por causa da temática e a trilha sonora, quando usada não compromete. Não é memorável, mas não incomoda.

O jogo possui legendas em português brasileiro e no geral elas estão boas, com uma falha aqui e outra ali.

Veredito final

Metamorphosis

Se você procura um jogo artisticamente diferente e com uma premissa única, Metamorphosis é uma boa escolha, mas o jogo não é perfeito, como eu disse, temos o problema das fetch quests e isso pode ser um fator que vá afastar algumas pessoas, assim como a temática de insetos.

Para uma reinterpretação da obra de Kafka, é decente, apesar da temática geral e segmento da história serem completamente diferentes. Ainda que nas duas mídias, o tema ser o de como o Gregor lida com a transformação em inseto, os arredores são diferentes. Se for jogar Metamorphosis, vá com isso em mente.

Metamorphosis está disponível para PC (via Steam e GOG), Playstation 4, Xbox One e Nintendo Switch.

O review foi feito com base na versão de PS4, gentilmente cedida pela publisher.

Author: Geovane Sancini

Geovane, mais conhecido como Sancini (ou Kyo, se você for velho o suficiente pra lembrar do nick antigo dele) é um escritor e speedrunner que joga videogames desde que se entende por gente.