Antes de mais nada, já vou tirar logo o elefante branco do caminho: esse é o melhor jogo de Lego já feito e não, não é vazio como os outros.

Originalidade

LEGO City Undercover, lançado em 2014, tem como diferencial a falta de uma licença de filme, algo comum nos jogos de LEGO feitos pela TT Games (antiga Traveller’s Tales). Ao invés disso, temos um jogo de mundo aberto enorme para os padrões da série — que normalmente são lineares e com câmera fixa –, que usa os brinquedos da série LEGO City (duh) como cenário para sua história policial.

Jogabilidade e nintendíces

A originalidade não se limita a isso. Concebido inicialmente como um exclusivo do falecido WiiU, muitos dos gimmicks do console foram aplicados ao jogo, todos com o uso do GamePad: era possível ver o mapa, rastrear pistas e abrir cofres, tudo na tela paralela do controle.

Porém, a versão que joguei foi a remasterização, lançada em 2017 para todos os consoles atuais e PC. Como era de se esperar, todas essas parafernálias do controle tiveram que ser adaptadas. O mapa foi para a tela e alguns quebra-cabeças agora se resolvem mais facilmente. Isso é engraçado porque o personagem ainda tem um tablet que é idêntico ao controle do WiiU, mesmo nas versões de PS4/XONE/PC. Mesmo com as adaptações o jogo ainda é divertido e cumpre o que propõe.

Andar pela cidade é prazeroso, porque todos os cantos possuem pequenos puzzles e coisas para descobrir e desbloquear, prédios com percursos de plataforma, os veículos são muito variados e até os pedestres são bem abundantes. Não sei quanto tempo eu perdi andando pela cidade somente abrindo coisas novas ao invés de avançar na história.

Sobre os veículos, vale a pena um parágrafo pra ressaltar quão divertido é controlá-los. Temos carros, motos, ônibus, caminhões, lanchas, navios e helicópteros, onde todos trafegam pela cidade de maneira sutil e melhores de controlar do que um GTA 4, por exemplo. Evidentemente que a sensação de velocidade não é ótima para todos, mas parece ser uma decisão pensada para que o jogador procure os melhores carros.

O combate é um ponto fraco, infelizmente. O jogador só precisa apertar o botão de soco até que os inimigos caiam e depois prendê-los com outro botão. Eventualmente alguns adversários exigem que você os agarre e depois arremesse, mas dificilmente vão se apresentar de forma desafiadora.

Já os quebra-cabeças são basicamente sucessões de objetos que precisam de interação usando determinada roupa. Chase McCain (nosso protagonista) possui diversas roupas, cada uma representando uma profissão. O uniforme de ladrão permite arrombar coisas com o pé de cabra e usar a pistola de tinta, enquanto que o astronauta permite voar por curtas distâncias e usar o teletransporte. Existem diversas vestimentas e o jogador vai constantemente ter que revezar entre elas durante as missões.

Humor e história

O ponto positivo dos jogos LEGO recentes sempre foram o humor cru e a facilidade de adaptar roteiros sérios com piadas inteligentes e que agradam tanto as crianças pela pegada pastelão mas também aos pais e adultos em geral que entendem referências e frases mais adultas jogadas no roteiro, claramente feitas pra pegar o público mais velho.


Aqui, temos um foco muito maior nessa segunda parte, já que o roteiro do jogo é original e não baseado numa franquia maior. Não temos por exemplo, uma paródia de cena clássica feita frase por frase, mas sim um texto bem escrito que vez ou outra toca em referências, indo de Um Sonho de Liberdade até Os Bons Companheiros, filmes que são longe do radar de qualquer criança, mas que os grandões vão pegar e se impressionar em como isso está sendo citado em um jogo feito pros menores.

Existe por exemplo, um personagem com aparência e voz similar ao de um ator de ação muito famoso nos anos 80, e todas as suas frases possuem o nome de um filme em que ele foi o protagonista. Obviamente que essa parte em si se perde na tradução (aqui somente com legendas), mas o restante dos diálogos está muito bem adaptado para o português, até mesmo na versão de Nintendo Switch. Isso foi um adendo desse remaster, pois o original não saiu no nosso idioma.

A história é típica dos filmes do estilo buddy cop, famosos nos anos 80 e 90. Você controla um policial muito apreciado por todos do departamento, e tem ajuda de diversas pessoas que possuem personalidades únicas e que te ajudam durante a missão de pegar um bandido que está causando o caos em LEGO City. Obviamente tudo é bem cartunesco mas o roteiro nunca parece idiota ou imbecilizado para facilitar o entendimento. O final inclusive é épico no sentido real da palavra e possui uma trilha sonora incrível.


Conclusão

Eu consigo recomendar LEGO City Undercover para dois tipos de pessoa: para os pais que querem se divertir com os filhos e também para aqueles que querem uma diversão leve mas com conteúdo. No primeiro caso, devido ao multiplayer, é possível se aventurar na história com um segundo jogador, então é o jogo perfeito para introduzir o filho/a para o universo dos games, já que os pais podem sempre dar uma mãozinha nas partes mais complicadas. Já para os marmanjos que só querem uma diversão mais suave – que foi o meu caso -, recomendo aproveitarem o game sem preconceitos, pois ele entrega uma diversão e gameplay sinceros e bem-feitos, deixando muito pouco à desejar e entregando algo acima do esperado para jogos feitos com foco no público infantil.

Não pense que se trata de um “Bob Esponja” ou “Kung Fu Panda” de PS2/XBOX (por exemplo). Temos aqui um jogo legítimo e de qualidade, que merece ser apreciado e analisado com carinho.

Author: Tony Santos

Proto-engenheiro eletricista, amante dos bons jogos e crítico incondicional de coisas que eu não gosto.