Festival da Boa Pancadaria

Muitos dos leitores do site são obviamente familiarizados com anime, correto? Mesmo que você não goste, ou já tenha deixado essa fase pra trás por diversos motivos, é inegável que quem pegou o finalzinho dos anos 80 até metade da primeira década dos anos 2000, foi muito influenciada pela cultura japonesa, que ficou enraizada na nossa mente e alma, tal qual os desenhos da Hannah-Barbera influenciaram nossos pais e primos mais velhos. 

Infelizmente, por outro lado, havia marketing de peso em cima dessas séries por aqui. Claro, haviam brinquedos, mas nos anos 90 a criançada queria era VIDEOGAME, e isso meu amigo, só na base de muita pirataria e sorte.

Sobre as séries da Shonen Jump, revista da Shueisha que publicou a maioria das séries para meninos que conhecemos por aqui, haviam muitos jogos, em sua maioria em japonês, que conhecemos graças aos paraguaios. Dragon Ball Z Super Butoden, Yu Yu Hakusho FINAL, um jogo do Hokuto no Ken de beat n’ up que não faço ideia do nome, etc. Muitas coisas chegaram aqui por tabela, e isso diluiu muito o possível impacto que esses jogos poderiam ter nas crianças.

Nos anos 2000, tivemos alguns jogos mais populares, inclusive em inglês, como os Dragon Ball Budokai e Tenkaichi no PS2, assim como os dois jogos de Cavaleiros do Zodíaco na mesma plataforma, que marcaram muito a galera que viveu essa época dos games. Ainda assim, parecia que faltava mais coisas, e a geração seguinte trouxe mais jogos, incluindo algumas iterações traduzidas para nossa língua(!), como é o caso deste J-Stars Victory VS+.

J-ogabilidade

J-Stars Victory VS foi lançado originalmente no Japão em 2014 para PS3, PS4 e PS VITA (usada neste review), com um lançamento mundial feito no ano seguinte, com algumas mudanças, como um modo Arcade — estranhamente ausente no original — e a remoção das músicas temas dos animes e as referências aos 45 anos da Jump. Vale lembrar que a versão com as músicas de cada série foi de um lançamento especial do game no Japão, então não se pode considerar isso uma verdadeira perda.

O game é de luta no estilo “arena fighter“, termo popularmente usado por quem conhece games de anime. Popularizado pelos jogos de Naruto na geração PS3, consiste numa grande área aberta onde os personagens se enfrentam, travando a mira e circulando ao redor do inimigo para atacá-los. A grande diferença aqui é que os personagens vêm de diversas séries diferentes, como Luffy, Goku, Naruto, Seiya, Kenshin e até algumas adições curiosas, como Saiki Kusuo, Arale (de Dr. Slump) e Ryotsu (de KochiKame), além de muitos outros. Um mérito da Spike Chunsoft, desenvolvedora que também fez a série DBZ Budokai Tenkaichi, foi criar movesets bem diferentes para cada personagem. Assim, mesmo que os botões de golpes e sua execução seja similar para todos, a melhor forma de utilizá-los e os combos são beeem diferentes para cada um deles. Alguns, como Luffy e Tsuna, são absurdamente overpowered, de modo que enfrentá-los ou usá-los contra a CPU muda completamente o rumo da batalha em segundos. Faltou balanceamento aí, infelizmente.

Já outros que normalmente seriam bem mais fortes, como os personagens de Dragon Ball, foram nivelados por baixo, talvez para dar mais destaque a outras séries que normalmente não são representadas em jogos com frequência. Achei justo e deixou o jogo com um toque diferente da maioria do gênero.

As batalhas são normalmente feitas em dupla e raramente em trio, com um outro personagem que pode ser usado como “reforço”, chamado ao toque de um botão, com um cooldown que varia de acordo com cada um. Pra tristeza de muitos, alguns bonecos não são selecionáveis para lutar, sendo limitados a essas aparições curtas de um ataque. É claro que muitos deles, como os representantes de animes de esportes como Kuroko (no Basket) e Hinata (de Haikyu) seriam difíceis de ganhar movimentos para um jogo de combate, mas se era esse o problema, por que não colocar outros mangás mais apropriados ao estilo do jogo? Acredito que a escolha tenha sido feita com base em tradição e também com a popularidade das séries à época do jogo. Só isso explicaria Toriko sendo representado.

As arenas tem pouca variedade, sendo 12 fases apenas, cada uma de uma série diferente. Para alegria de nós brasileiros, temos em destaque o estádio do Torneio das Trevas de Yu Yu Hakusho (aqui chamado de “Torneio Sombrio” na tradução mais ou menos da Bandai Namco) e também o Templo de Atena de CdZ. A versão de Vita possui gráficos bem mais simples, portanto me preservo de opinar sobre a beleza desses cenários, mas você pode ver a versão de PS4 e dar sua própria opinião.

Modos de Jogo

Existem alguns modos de jogos, como a J-Aventura, onde ocorre a maior parte das batalhas. Você escolhe entre 4 campanhas, onde o que muda realmente são os personagens que você joga. Esse modo tem uma história facilmente desconsiderável, e você pode só ficar apertando X até a cena acabar, já que as missões, em sua maioria, ficam marcadas no mapa. Aqui você precisa controlar um barquinho num mapa-múndi, onde vários lugares que representam as séries da JUMP estão espalhados, sem nenhuma explicação, mas que funciona para você visitar e conversar com personagens que não aparecem como jogáveis.

Existem também o modo Estrada da Vitória, que funciona como uma campanha mais linear, mas que se torna extremamente repetitivo, ainda mais se o jogador busca fazer 100%. Ao total, esse modo conta com 130 batalhas (!), que variam muito de dificuldade mas que talvez sirvam pra deixar a vida do game mais longa, caso você seja louco o suficiente para tal. 

O Modo Arcade, exclusivo do lançamento ocidental, não oferece muita coisa além de mais e mais batalhas. Faltou variedade e criatividade nesse quesito, já que todos os modos de jogo são apenas variações do mesmo, divididos em blocos só para aumentar o tamanho do jogo.

Conclusão dessa loucura

Apesar de gameplay satisfatório até certo ponto, o modo J-Aventura faz o jogo cansar rapidamente. Controlar o navio pelo mapa não é divertido e apenas dá a sensação de que está te atrasando de seguir a jornada. A história é totalmente rasa e a tradução da Bandai Namco segue a tradição de falhar constantemente, já que muitas vezes o texto parece mal traduzido do inglês ou se apresenta nessa língua em algumas partes sem motivo algum. Fica claro que o tradutor possuía algum conhecimento de algumas séries, porém por retratar diversos universos — com alguns sequer conhecidos por aqui — nota-se que poderia ter havido um pouco mais de pesquisa, porém o jogador comum só vai notar essas falhas nos quizzes que aparecem nos loadings.

O multiplayer não foi citado anteriormente mas, pra variar, é mais do mesmo. Jogar em tela dividida nos consoles de mesa estranhamente não preenche a tela inteira, deixando a área de visão do jogador limitada. Caso queira jogar com um amigo, dê preferência ao online e deixe o game como plano de fundo para aproveitar uma boa conversa. Talvez seja essa a melhor forma de apreciar esse jogo, que na minha opinião possui muito conteúdo, mas o jogador vai enjoar nas primeiras horas.

Caso queira conferir, ele frequentemente está em promoção na PlayStation Store. O louco aqui platinou pra fazer esse review. Se eu recomendo? Bem, você gosta MUITO da Shonen Jump?

Author: Tony Santos

Proto-engenheiro eletricista, amante dos bons jogos e crítico incondicional de coisas que eu não gosto.