Sabem, às vezes eu me pergunto: Por
que eu gosto de videogames? A resposta pura e simples é: são
divertidos, neles eu posso ser literalmente o que quiser. Uma
caçadora de zumbis que usa espadas e biquinis pra fatiar mortos e
vampiros (Onechanbara), um soldado numa guerra do oriente médio onde
minhas escolhas e ações não importam (Spec-Ops: The Line), o
Presidente dos Estados Unidos indo salvar o universo de uma raça
alienígena tirana, portando um dildo roxo e usando superpoderes
(Saints Row IV), uma fatia de pão (I am Bread), uma Ninja que mesmo
sendo considerada fugitiva, vai lutar para salvar suas irmãs (Deador Alive 6). As possibilidades são literalmente infinitas, pois há
jogo com todo o tipo de temática para todo o tipo de gosto.

Bom, se você ficou empolgado com a
revelação de algumas das características técnicas do próximo
PlayStation… Lamento dizer que seu leque de opções pode ficar bem
limitado. Com a Sony revelando, segundo matéria do Wall StreetJournal, que possui um setor específico dedicado a verificar o
conteúdo de todos os jogos a serem lançados na plataforma e vetar
tudo aquilo que não seguir determinadas normas, trocando em miúdos,
censura.  


O principal problema disso, é que isso
não afeta mais jogos lançados apenas no ocidente, como era de praxe
desde a época do nintendinho, onde nudez era censurada e símbolos
religiosos alterados. Mesmo roteiro dos jogos foi alterado em
localizações ao longo do tempo. Agora, afeta mesmo os jogos
lançados no Japão, além do resto do mundo. E, foi deixado bem
claro que o alvo da censura eram os jogos japoneses, tais quais
visual novels, ou jogos como Dead or Alive e Senran Kagura, a coisa
cresceu ano passado a ponto de Kenichiro Takaki, criador e produtor
de Senran Kagura, deixar a Marvelous após 13 anos.  



Os motivos alegados pela Sony foram
basicamente: “pense nas crianças” e o #MeToo. EU NÃO ESTOU
BRINCANDO. “Pense nas Crianças” é meio imbecil, porque desde
Mortal Kombat, existe nos EUA um órgão dedicado a classificação
etária dos jogos, a ESRB, assim como no Japão temos o CERO e na
Europa tem o PEGI. Aqui no Brasil, se não estou enganado, o responsável pela classificação de produtos culturais, como filmes,
jogos e programas de TV, é feita pelo Ministério da Justiça. 




































Isso
é feito, para que o Juquinha, garoto de sete anos, filho do Seu
Ademir, não jogue um jogo como o Mortal Kombat 11 onde é possível
arrancar a cara de uma pessoa, jogo esse que possui classificação
etária para MAIORES DE DEZOITO ANOS. Ninguém dá a mínima pra
classificação etária, lógico, porque se ligassem, um time inteiro
de futebol não teria comido minha mãe por causa de uma partida de
Call of Duty, mas minha inaptidão em first person shooters é assunto pra outro dia.



E o #MeToo, gostando ou não do
movimento… NÃO TEM NADA A VER COM VIDEOGAMES. Ainda que o
movimento tenha caído no ostracismo devido a hipocrisia das
envolvidas nele (isso é um assunto que eu não quero discutir,
agora), era um movimento justamente pra denunciar predadores sexuais
em Hollywood, e até onde me lembro, Harvey Weinstein (tive que
googlear pra saber se estava escrevendo o nome corretamente) nunca
foi visto jogando Nekopara ou Senran Kagura.


Enfim, ficou claro A QUEM a Sony quer
agradar com essa medida, não? Só dar uma passada no Resetera (vulgo
CÂNCER da humanidade) pra ver quem ficou feliz. Não quero discutir
isso agora, provavelmente devo escrever algo sobre o Resetera um dia.

Lembram que depois do atentado/tragédia
em São Paulo, as pessoas de sempre (políticos, velha imprensa,
gente desinformada) saíram acusando os jogos violentos de
influenciarem, e mais uma vez tentarem colocar uma lei para proibir a
distribuição de jogos considerados violentos aqui no Brasil?
Basicamente, censura. E o que foi visto? Pessoas e mais pessoas e
páginas usando uma tag que por razões éticas, não usei em tweet
ou discussão no facebook.





Curiosamente, não vi posts no
facebook, hashtags ou discussões a respeito disso nas páginas
Brasileiras. Mas vi bastante gente especulando sobre o PS5 e isso e
aquilo. A imprensa também está em silêncio, não vi youtubers,
blogs comentando a respeito. Mas lembro que em muitos posts acerca de
censuras da Sony em jogos como Senran Kagura, ou visual novels, ou
mesmo
Devil May Cry 5 (a bunda da Trish que recebeu visita do Raio de
Luz), entre os comentários criticando a censura, sempre tinha a
turma comentando: “a la o punheteiro”, “se eu quero ver mulher
pelada vou no pornhub” “kkk punheteiro” “esse negócio do
devil may cry é errado, mas esses jogo hentai tinha que acabar” “e
o dead or alive que é só jogo de punheteiro?”.

Isso revela duas coisas: Primeiro, que
o sexo, ou sensualidade, ainda é um tabu. Vivemos no que diz ser um
país avançado, que bla bla bla, tem que ter educação sexual nas
escolas (o que concordo), liberal etc, mas a verdade é que
continuamos tremendamente pudicos em relação a sexo, tudo é
tratado como algo de outro mundo e a sensualidade é visto como algo
feio, sujo, vil. Se você gosta de algo com um pouco de fanservice,
já é taxado de tarado, depravado, etc.



A segunda, é que a comunidade num
geral é tremendamente hipócrita. Porque ela não é contra a
censura. Ela é contra a censura apenas do que ela não gosta.
Afinal, o “Tem que banir jogo violento porque influencia crianças”
gera o “#ÇOMUSGAYMERNOMAÇACINU”, enquanto que o “Olha, a Sony
tá censurando esse jogo aqui, e relatos desse, desse e desse terem
sido censurados (todos eles, jogos de anime com fanservice variados)”
gera o “Foda-se, não jogo esses jogos de punheteiro mesmo.”.


A maioria das pessoas literalmente só
quer jogar seus jogos em paz, não vejo problema nisso. E, apesar de
eu falar sobre o silêncio, não vejo problema em a pessoa NÃO
QUERER comentar sobre a censura da Sony. Nem todo mundo precisa dar
opinão sobre tudo. Agora, você querer escrotizar quem se coloca
contra, justamente porque é sobre algo que você não curte, é um
tanto hipócrita.



Digo, isso pode não te afetar agora,
mas censura É SEMPRE algo errado, porque quando começa, não vai
terminar ali. Uma hora cortam algo que você particularmente não
liga (fanservice), reclamam e você zoa . Depois cortam outra coisa
também não liga (sei lá, romances em jogos), mais gente reclama,
mas você continua zoando. Aí finalmente vão censurar a violência
nos jogos e agora você vai reclamar? Esse padrão aconteceu com
Devil May Cry 5 na censura da bunda da Trish, depois de ter
acontecido em jogos como Nekopara, algumas visual novels japonesas e
Senran Kagura, poucos ligaram, mas chegou em Devil May Cry, um jogo
de escopo imenso, a reclamação foi grande, a ponto da Capcom
provavelmente ter apelado e conseguiu reverter a situação.



E agora, com a Sony tornando a censura
em suas plataformas algo oficial, é triste ver criadores de conteúdo
calados em relação a isso, ao mesmo tempo em que criam expectativas
em torno do próximo
PlayStation. Entre decisões como essa, o Stadia
com seu serviço apenas online e streaming, e a Microsoft com o Xbox
One SAD que apela pra EXATAMENTE NINGUÉM (não sei se comentarei
mais a respeito dele), saindo ainda mais caro que o
Xbox One S atual
aqui no Brasil, é estranhamente irônico que a Nintendo tenha
comentado ao Wall Street Jornal, que não regula o conteúdo das
third parties em sua plataformas, desde que estejam de acordo com a
classificação indicativa da região em que o jogo será lançado.

E também é irônico, que enquanto
Dead or Alive 6 é considerado “ofensivo” as mulheres por mostrar
mulheres bonitas e fanservice, mas Mortal Kombat 11, onde você pode
literalmente arrancar a cara das mulheres, é altamente aguardado e
não é considerado ofensivo.



Finalizando, você tem o direito de
gostar e não gostar do que quiser, mas no momento em que você ataca
a censura a uma coisa, mas defende a censura a outra só porque você
não gosta, isso te torna uma pessoa extremamente hipócrita, e
invariavelmente vai invalidar quando a censura chegar a algo que você
gosta. Se você não gosta de algo, respeite quem gosta, isso já é
uma ajuda, quando a censura bate.  

Author: Geovane Sancini

Geovane, mais conhecido como Sancini (ou Kyo, se você for velho o suficiente pra lembrar do nick antigo dele) é um escritor e speedrunner que joga videogames desde que se entende por gente.